Na Boca da Caverna - UOL Blog
Cena do Cotidiano II

 

O molho de chaves tilinta em meu bolso, quando o retiro e manipulo pensativo. Como sempre, meu olhar é atraído pelo disco de couro, endurecido pelo tempo, que teimo em utilizar como chaveiro. Tornou-se um ritual. Digamos...um rito de passagem. Assim é, por existirem muitas chaves juntas: pequenas, médias, prateadas, apenas uma dourada. E é esta a que me interessa. A pequena chave sempre se destaca das outras, orgulhosa de sua função. Pode uma chave sentir-se superior? Ah!, esta parece ser capaz disso! Paro e olho para a porta. Os veios da madeira destacam-se sob a camada de cera. Mesmo envelhecida continua sendo uma bela porta, com seu tom avermelhado lembrando o mogno. Só, no corredor, seguro a maçaneta dourada e introduzindo a chave na fechadura, giro uma...duas vezes. Ouço!... O silêncio do ambiente é quebrado apenas pelos clique-cliques do mecanismo interno que movimenta o trinco. Então, liberta do batente, a porta gira deixando a débil luz do hall adentrar a sala escura.

Inundando os sentidos

 

Os raios do sol parecem alegres ao brincar de pular as ondas. A areia, ao embalo do mar, bebe o verde, torna-se cinza e doa à espuma a sua brancura. Assim que fecho os olhos o mundo azul, verde e dourado torna-se rubro. A areia tem um toque áspero e gelado em contraste com o calor do sol. Sinto nos lábios o gosto da brisa, os restos dos beijos salgados que ganhou do mar. Inspiro e sou assaltado por uma confusão de aromas: maresia, frituras, caipirinhas e cervejas, loções de bronzear. Sons se misturam numa louca babel. Perto, gritos e risos de crianças. Ao meu lado, uma dupla de velhotas, invejosamente, fala mal das moças de biquíni. Mais ao fundo, o som de um violão em sintonia com um coral de jovens vozes. Mulheres comentam o capítulo da novela da noite anterior. O vendedor de milho tenta gritar mais alto que o vendedor de picolés. Tons mais graves discutem os resultados da rodada de futebol sem concordarem. À minha direita, resmungos de velhos embalados ao som das bolas de bocha. O grito longínquo de algumas gaivotas, brigando pelos restos de algum peixe que deu à praia, luta para sobressair ao ronco surdo do tráfego na avenida distante. Concentro-me. Forço o silêncio. Sobram apenas o quebrar das ondas. O marulho suave das águas na areia. A brisa. O Mar.

Olfato

 

O aroma suave das rosas domina a sala, e, o vermelho vivo das pétalas refletindo na luxuosa baixela tinge de fogo o metal polido. Cada peça está harmoniosamente disposta. Um exército de prata e cristal aguardando ordens sobre um bordado e alvo campo de batalhas. Nesse instante os convidados adentram a sala, um a um. A medida que chegam, como num balé ensaiado, lentamente, tomam seus lugares à mesa. Depois que todos se acomodam, aproximo-me e em silêncio busco minha cadeira. Logo, a porta da cozinha se abre e a copeira adentra a silenciosa sala, trazendo nas mãos a fumegante travessa. Assim que o primeiro prato é disposto sobre a mesa, nuvens de promessas e sabores invadem o ambiente. A medida que o perfumado vapor escapa da comida sinto,  antecipadamente, o prazer que me aguarda.

Cena do Cotidiano I

 

Preguiça de pijamas e chinelos, olhar nublado, empurro a panela sob a torneira. A água cantando no metal afasta o sono que quer teimar. Fogo aceso, água esquentando, volto a atenção para a pia. Caneca, coador e filtro, encarrapitados nos ombros uns dos outros. Equilibristas de um circo matinal em picadeiro de mármore branco. Sobre o negro pó um toque de canela. No fogo a água grita e chora. Lágrimas de vapor borbulham numa fuga inútil e se desfazem no ar. Um jorro ardente, e uma cascata que estala, crepitando, põe água e pó, num turbilhão, girando em aromática valsa, a bailar. Colorida, transformada, a antes insípida e inodora bailarina, lentamente surge. Gota a gota no princípio, tímida, acanhada. Mas, carregando em si parte do amado, rapidamente se empolga e, numa torrente negra, de assalto a caneca toma. E da união de fogo, água e pó um delicioso aroma enche o ar da cozinha.

Cronos

 

Cronos, ladrão de sonhos

Não me obrigues a calar.

 

Esperanças, planos

Febres, alegrias, medos

Noites mal dormidas

Pequenas histórias após o jantar

 

Cronos, ladrão de sonhos

Não me obrigues a ver sem tocar.

 

Colo, o saudoso colo

E entre cócegas e risos

o gargalhar de um anjo.

 

Cronos, ladrão de sonhos

Não me obrigues a amar sem dizer.

 

Tempo, fera voraz

ladrão da vida

sobram lembranças

a esperança perdida.

 

Cronos, ladrão de sonhos

Não me obrigues a sorrir querendo chorar.

Escrever é combinar palavras...

 

 

Belas palavras, leves, soltas

Loucas palavras....

 

Traçam, troçam

torcem, retorcem

atiçam, tecem

tocam, retocam

tentam, sustentam

 

Belas palavras, leves, soltas

Loucas palavras....

 

Apelam, apóiam

apagam, protestam

apaziguam, apupam.

promovem, propõem

suplicam, perpetuam

aprumam, derrubam

 

Belas palavras, leves, soltas

Loucas palavras....

 

Versejam, vicejam

voam, viajam

violentas, suaves

vazias, velozes

 

Belas palavras, leves, soltas

Loucas palavras....

 

Remoem, corroem

revogam, recorrem

renegam, recuam

retornam, recaem.

 

Belas palavras, leves, soltas

Loucas palavras....

 

Chovem, enxugam

apaixonam, enxovalham

xingam, chacoalham

enchem, preenchem

achegam ,enxotam.

 

Belas palavras, leves, soltas

Loucas palavras....

 

Agridem, afagam

agradam, degradam

agudas, vigorosas

vulgares.

 

Belas palavras, leves, soltas

Loucas palavras....

 

Manhosas, melosas

maduras, imaturas

maviosas, amorosas

amigas, amargas

macias, mordazes

 

Belas palavras, leves, soltas

Loucas palavras....

 

Lentas, aladas,

simples, letradas

alegres, levadas

alheias,

compartilhadas.

 

Belas palavras, leves, soltas

Loucas palavras....

 

Súbitas, profundas

únicas, adultas

últimas, imaturas

úmidas, fecundas

 

Belas palavras, leves, soltas

Loucas palavras....

 

Silenciosas, suaves

sinceras, ansiosas

sinistras, saudosas

serenas, amistosas.

 

Belas palavras, leves, soltas

Loucas palavras....

 

Azedas, aziagas

isentam, usurpam

atrasam, abusam

induzem, deduzem.

 

Belas palavras, leves, soltas

Loucas palavras....

 

Falsas, afoitas

aflitas, felizes

fortes, afáveis

festivas, enfeitadas

feias, fúnebres

farfalham, flutuam

fugazes.

 

Belas palavras, leves, soltas

Loucas palavras....

 

Ajeitam, agitam

jeitosas, gélidas

juvenis, geriátricas

ajudam, judiam

prejudicam

 

Belas palavras, leves, soltas

Loucas palavras....

 

Cálidas, quentes

poucas, castas

quiméricas, acalentam

castram, constroem

aquietam, acusam

 

Belas palavras, leves, soltas

Loucas palavras....

 

Torpes, tardias

tímidas, antigas

tolas, ateias

tendenciosas

 

Belas palavras, leves, soltas

Loucas palavras....

 

Destroem, dignificam

adiam, adulam

doces, doentes

dolorosas, dignas

dementes, dúbias

indolentes.

 

Belas palavras, leves, soltas

Loucas palavras....

 

Fáceis, difíceis

avulsas, versáteis

fatais, finais.

Ventos do Passado

Sopro de brisa

que doce passado você me traz.

 

Sentimentos suaves

sussurros e sustos

Aflita?

Afoito!

Sofrimento fugaz.

 

Sopro de brisa

que doce passado você me traz.

 

É a folha que fala:

Aceita?

Aceito!

Silêncio...

só o vento sussurra...

soluça uma benção...

um afago...

...solto no ar.

 

Sopro de brisa

que doce passado você me traz.

 

Saudades,

Falhas felizes,

Sucessos sofridos,

Sonhos...

Sonoras sombras

Sombras da vida

De vida vivida

De vida feliz

 

Sopro de brisa

que doce passado você me traz.

Aborto

Só mesmo um aborto da natureza como esse "tal de deputado", que já deveria ter sido cassado a muito tempo, para agitar um projeto como esse.

É uma pena que ele não tenha sido abortado, pois nos pouparia de tanta vergonha.

Deu no Uol Noticias Cotidiano:

03/07/2008 - 06h00

Projeto que descriminaliza o aborto pode ser votado na próxima semana, diz relator

Claudia Andrade
De Brasília

"Autor do projeto 176, o deputado José Genoino (PT-SP) avisou que vai obstruir "o máximo possível" a votação. Seu plano é adiá-la "pelo menos" até agosto. Neste mês, após o recesso de julho, o Supremo Tribunal Federal poderá julgar o aborto de fetos anencéfalos. "Vou adiar a votação o máximo que puder, porque acho que o assunto ainda precisa de muito debate e porque a gente perde aqui", disse, referindo-se a CCJ. "

Manhã de Sol

 

Morna manhã, cálido sol nascente
brisa suave, farfalhar de árvores e panos
clima doce, perfume envolvente
pássaros, insetos, sussurros
geme o gado, ao longe, num lamento
e, perto, inquietos, no feno quente
mais perto, quem fica é a gente
bem perto, gemendo em abraço ardente.
Fada que inflama

 

Leve a névoa. Velado o vulcão.

Diáfana ninfa,
fresca fada de fogoso ventre,
fraca a fagulha,
veloz a faísca,
fogo voraz.

Leve a névoa. Velado o vulcão.

Suave fonte de fresco vinho
Vinha farta,
de forte efeito,
afaga, inflama,
leva a voar.

Leve a névoa. Velado o vulcão.

Aflita flor,
de feroz volúpia,
afoita viceja.

Vênus.
Faminta naufraga.
Vesúvio.
Num fluxo de lava.

Tédio

 

Sonolento é o tempo,
tedioso é o túmulo, solitária é a tumba.

Teto de tristes trepadeiras,
adornado de tênues teias tortas.
Porto tímido onde a vida finda

Sonolento é o tempo,
tedioso é o túmulo, solitária é a tumba.

Vasto tempo
se o teu lamento é doce
eterno todo teu sofrimento,
danoso teu doente adiar.

Sonolento é o tempo,
tedioso é o túmulo, solitária é a tumba.

O temor que tolhe teu canto triste
e tua trêmula cadência adúltera
mata todo o sentir.

Sonolento é o tempo,
tedioso é o túmulo, solitária é a tumba.

Arrastado tédio,
de tolo medo doentio,
torpe lentidão a tudo adiar.

Sonolento é o tempo,
tedioso é o túmulo, solitária é a tumba.

Dias de segundos contados em gotas tristes
Lento tempo dado, suado, a se arrastar.

Sonolento é o tempo,
tedioso é o túmulo, solitária é a tumba.

Onde a dádiva da abençoada dor?
Onde a desejada morte obter?
Tenebroso tempo deixa-me partir.

Sonolento é o tempo,
tedioso é o túmulo, solitária é a tumba.
Quem sou eu?

 

Quem sou? Não sei, não!

 

Cabeça nas nuvens

Pés no chão.

Olhos nas estrelas.

Cego o coração.

 

Quem sou? Não sei, não!

 

Neve nos cabelos.

Fogo na alma

Vontade de pedra,

mas pedra emplumada.

 

Quem sou? Não sei, não!

 

Água nos olhos.

Voz de trovão.

Alma de criança,

Memória de ancião

 

Quem sou? Não sou, não!

 

Estou sendo,

vivendo com paixão.

Zé Mané

 

Cabeça vazia.

Pé de valsa cabeçudo,

cabecinha, Zé Mané.

 

Seu papo cabeça?

Caspa, piolho, cerveja

futebol, jogo e muié.

Sem pé nem cabeça,

calo, frieira e chulé.

 

Sujeito sem jeito

só corpo, sem alma

bate no peito

empina o nariz

se a coisa aperta

com o rabo entre as pernas

se encolhe e se acalma:

- Que foi que eu fiz?

Natureza Distante

 

Nuvens...

...flocos de esperança da caatinga ardente.

 

Nuvens...

...água-viva, nutriente, da floresta verde.

 

Nuvens...

...avalanche displicente no abismo oceânico.

 

Nuvens...

...vitórias-régias celestes de sombras fartas.

 

Nuvens...

...sopro de sonhos que a brisa mata.

 

Nuvens...

...brancas, negras, douradas...

 

Dádiva alada

 

Ah! Amar,

fábula de mágica alma,

cálidos lábios e alvo abraço.

 

Ah! Amar,

dádiva alada

a bailar em vasto espaço.

 

Ah! Amar,

musical fada

que em pauta de prata me faz valsar.

 

Ah! Amar,

vendaval que a carne abrasa,

e em calma paz me faz sonhar.

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