O molho de chaves tilinta em meu bolso, quando o retiro e manipulo pensativo. Como sempre, meu olhar é atraído pelo disco de couro, endurecido pelo tempo, que teimo em utilizar como chaveiro. Tornou-se um ritual. Digamos...um rito de passagem. Assim é, por existirem muitas chaves juntas: pequenas, médias, prateadas, apenas uma dourada. E é esta a que me interessa. A pequena chave sempre se destaca das outras, orgulhosa de sua função. Pode uma chave sentir-se superior? Ah!, esta parece ser capaz disso! Paro e olho para a porta. Os veios da madeira destacam-se sob a camada de cera. Mesmo envelhecida continua sendo uma bela porta, com seu tom avermelhado lembrando o mogno. Só, no corredor, seguro a maçaneta dourada e introduzindo a chave na fechadura, giro uma...duas vezes. Ouço!... O silêncio do ambiente é quebrado apenas pelos clique-cliques do mecanismo interno que movimenta o trinco. Então, liberta do batente, a porta gira deixando a débil luz do hall adentrar a sala escura.
Os raios do sol parecem alegres ao brincar de pular as ondas. A areia, ao embalo do mar, bebe o verde, torna-se cinza e doa à espuma a sua brancura. Assim que fecho os olhos o mundo azul, verde e dourado torna-se rubro. A areia tem um toque áspero e gelado em contraste com o calor do sol. Sinto nos lábios o gosto da brisa, os restos dos beijos salgados que ganhou do mar. Inspiro e sou assaltado por uma confusão de aromas: maresia, frituras, caipirinhas e cervejas, loções de bronzear. Sons se misturam numa louca babel. Perto, gritos e risos de crianças. Ao meu lado, uma dupla de velhotas, invejosamente, fala mal das moças de biquíni. Mais ao fundo, o som de um violão em sintonia com um coral de jovens vozes. Mulheres comentam o capítulo da novela da noite anterior. O vendedor de milho tenta gritar mais alto que o vendedor de picolés. Tons mais graves discutem os resultados da rodada de futebol sem concordarem. À minha direita, resmungos de velhos embalados ao som das bolas de bocha. O grito longínquo de algumas gaivotas, brigando pelos restos de algum peixe que deu à praia, luta para sobressair ao ronco surdo do tráfego na avenida distante. Concentro-me. Forço o silêncio. Sobram apenas o quebrar das ondas. O marulho suave das águas na areia. A brisa. O Mar.
O aroma suave das rosas domina a sala, e, o vermelho vivo das pétalas refletindo na luxuosa baixela tinge de fogo o metal polido. Cada peça está harmoniosamente disposta. Um exército de prata e cristal aguardando ordens sobre um bordado e alvo campo de batalhas. Nesse instante os convidados adentram a sala, um a um. A medida que chegam, como num balé ensaiado, lentamente, tomam seus lugares à mesa. Depois que todos se acomodam, aproximo-me e em silêncio busco minha cadeira. Logo, a porta da cozinha se abre e a copeira adentra a silenciosa sala, trazendo nas mãos a fumegante travessa. Assim que o primeiro prato é disposto sobre a mesa, nuvens de promessas e sabores invadem o ambiente. A medida que o perfumado vapor escapa da comida sinto, antecipadamente, o prazer que me aguarda.
Preguiça de pijamas e chinelos, olhar nublado, empurro a panela sob a torneira. A água cantando no metal afasta o sono que quer teimar. Fogo aceso, água esquentando, volto a atenção para a pia. Caneca, coador e filtro, encarrapitados nos ombros uns dos outros. Equilibristas de um circo matinal em picadeiro de mármore branco. Sobre o negro pó um toque de canela. No fogo a água grita e chora. Lágrimas de vapor borbulham numa fuga inútil e se desfazem no ar. Um jorro ardente, e uma cascata que estala, crepitando, põe água e pó, num turbilhão, girando em aromática valsa, a bailar. Colorida, transformada, a antes insípida e inodora bailarina, lentamente surge. Gota a gota no princípio, tímida, acanhada. Mas, carregando em si parte do amado, rapidamente se empolga e, numa torrente negra, de assalto a caneca toma. E da união de fogo, água e pó um delicioso aroma enche o ar da cozinha.
Cronos, ladrão de sonhos
Não me obrigues a calar.
Esperanças, planos
Febres, alegrias, medos
Noites mal dormidas
Pequenas histórias após o jantar
Cronos, ladrão de sonhos
Não me obrigues a ver sem tocar.
Colo, o saudoso colo
E entre cócegas e risos
o gargalhar de um anjo.
Cronos, ladrão de sonhos
Não me obrigues a amar sem dizer.
Tempo, fera voraz
ladrão da vida
sobram lembranças
a esperança perdida.
Cronos, ladrão de sonhos
Não me obrigues a sorrir querendo chorar.

Belas palavras, leves, soltas
Loucas palavras....
Traçam, troçam
torcem, retorcem
atiçam, tecem
tocam, retocam
tentam, sustentam
Belas palavras, leves, soltas
Loucas palavras....
Apelam, apóiam
apagam, protestam
apaziguam, apupam.
promovem, propõem
suplicam, perpetuam
aprumam, derrubam
Belas palavras, leves, soltas
Loucas palavras....
Versejam, vicejam
voam, viajam
violentas, suaves
vazias, velozes
Belas palavras, leves, soltas
Loucas palavras....
Remoem, corroem
revogam, recorrem
renegam, recuam
retornam, recaem.
Belas palavras, leves, soltas
Loucas palavras....
Chovem, enxugam
apaixonam, enxovalham
xingam, chacoalham
enchem, preenchem
achegam ,enxotam.
Belas palavras, leves, soltas
Loucas palavras....
Agridem, afagam
agradam, degradam
agudas, vigorosas
vulgares.
Belas palavras, leves, soltas
Loucas palavras....
Manhosas, melosas
maduras, imaturas
maviosas, amorosas
amigas, amargas
macias, mordazes
Belas palavras, leves, soltas
Loucas palavras....
Lentas, aladas,
simples, letradas
alegres, levadas
alheias,
compartilhadas.
Belas palavras, leves, soltas
Loucas palavras....
Súbitas, profundas
únicas, adultas
últimas, imaturas
úmidas, fecundas
Belas palavras, leves, soltas
Loucas palavras....
Silenciosas, suaves
sinceras, ansiosas
sinistras, saudosas
serenas, amistosas.
Belas palavras, leves, soltas
Loucas palavras....
Azedas, aziagas
isentam, usurpam
atrasam, abusam
induzem, deduzem.
Belas palavras, leves, soltas
Loucas palavras....
Falsas, afoitas
aflitas, felizes
fortes, afáveis
festivas, enfeitadas
feias, fúnebres
farfalham, flutuam
fugazes.
Belas palavras, leves, soltas
Loucas palavras....
Ajeitam, agitam
jeitosas, gélidas
juvenis, geriátricas
ajudam, judiam
prejudicam
Belas palavras, leves, soltas
Loucas palavras....
Cálidas, quentes
poucas, castas
quiméricas, acalentam
castram, constroem
aquietam, acusam
Belas palavras, leves, soltas
Loucas palavras....
Torpes, tardias
tímidas, antigas
tolas, ateias
tendenciosas
Belas palavras, leves, soltas
Loucas palavras....
Destroem, dignificam
adiam, adulam
doces, doentes
dolorosas, dignas
dementes, dúbias
indolentes.
Belas palavras, leves, soltas
Loucas palavras....
Fáceis, difíceis
avulsas, versáteis
fatais, finais.
Sopro de brisa
que doce passado você me traz.
Sentimentos suaves
sussurros e sustos
Aflita?
Afoito!
Sofrimento fugaz.
Sopro de brisa
que doce passado você me traz.
É a folha que fala:
Aceita?
Aceito!
Silêncio...
só o vento sussurra...
soluça uma benção...
um afago...
...solto no ar.
Sopro de brisa
que doce passado você me traz.
Saudades,
Falhas felizes,
Sucessos sofridos,
Sonhos...
Sonoras sombras
Sombras da vida
De vida vivida
De vida feliz
Sopro de brisa
que doce passado você me traz.
Só mesmo um aborto da natureza como esse "tal de deputado", que já deveria ter sido cassado a muito tempo, para agitar um projeto como esse.
É uma pena que ele não tenha sido abortado, pois nos pouparia de tanta vergonha.
Deu no Uol Noticias Cotidiano:
"Autor do projeto 176, o deputado José Genoino (PT-SP) avisou que vai obstruir "o máximo possível" a votação. Seu plano é adiá-la "pelo menos" até agosto. Neste mês, após o recesso de julho, o Supremo Tribunal Federal poderá julgar o aborto de fetos anencéfalos. "Vou adiar a votação o máximo que puder, porque acho que o assunto ainda precisa de muito debate e porque a gente perde aqui", disse, referindo-se a CCJ. "
Leve a névoa. Velado o vulcão.
Diáfana ninfa,
fresca fada de fogoso ventre,
fraca a fagulha,
veloz a faísca,
fogo voraz.
Leve a névoa. Velado o vulcão.
Suave fonte de fresco vinho
Vinha farta,
de forte efeito,
afaga, inflama,
leva a voar.
Leve a névoa. Velado o vulcão.
Aflita flor,
de feroz volúpia,
afoita viceja.
Vênus.
Faminta naufraga.
Vesúvio.
Num fluxo de lava.
Quem sou? Não sei, não!
Cabeça nas nuvens
Pés no chão.
Olhos nas estrelas.
Cego o coração.
Quem sou? Não sei, não!
Neve nos cabelos.
Fogo na alma
Vontade de pedra,
mas pedra emplumada.
Quem sou? Não sei, não!
Água nos olhos.
Voz de trovão.
Alma de criança,
Memória de ancião
Quem sou? Não sou, não!
Estou sendo,
vivendo com paixão.
Cabeça vazia.
Pé de valsa cabeçudo,
cabecinha, Zé Mané.
Seu papo cabeça?
Caspa, piolho, cerveja
futebol, jogo e muié.
Sem pé nem cabeça,
calo, frieira e chulé.
Sujeito sem jeito
só corpo, sem alma
bate no peito
empina o nariz
se a coisa aperta
com o rabo entre as pernas
se encolhe e se acalma:
- Que foi que eu fiz?
Nuvens...
...flocos de esperança da caatinga ardente.
Nuvens...
...água-viva, nutriente, da floresta verde.
Nuvens...
...avalanche displicente no abismo oceânico.
Nuvens...
...vitórias-régias celestes de sombras fartas.
Nuvens...
...sopro de sonhos que a brisa mata.
Nuvens...
...brancas, negras, douradas...
Ah! Amar,
fábula de mágica alma,
cálidos lábios e alvo abraço.
Ah! Amar,
dádiva alada
a bailar em vasto espaço.
Ah! Amar,
musical fada
que em pauta de prata me faz valsar.
Ah! Amar,
vendaval que a carne abrasa,
e em calma paz me faz sonhar.
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