Roubou a moça, levou a moça.
O corno fez a guerra e com um cavalo de pau venceu.
Matou a todos e trouxe a moça.
O do calcanhar dançou.
Esta Dutra é um lixo, mas duas semanas curtindo peitos e bundas em Copacabana compensam. ... Porra, que sono! ... Tomara que mamãe não comece a implicar com o Sérgio. ... Encho o rabo de cerveja e caipirinha, chego travado no AP, deito e durmo. ... A bosta da entrega está muito atrasada! ... Com papai de cara cheia e mamãe tendo que segurar a vovó vou sair e agitar. ... Estas férias vão ser um saco, detesto areia. ... Tenho que dar um jeito de me livrar do Serginho. ... Que merda de neblina! ... Quando vão criar uma praia acarpetada com ar condicionado e Lanhouse? ... Trocava esta porra de carreta por uma cama! ... Precisamos de um pouco de paz nestas férias. ... A Julia que agüente a mãe dela. ... Puta merda! ... Que? ... O que foi? ... Cuidado ... Nãããooo ... Caraca, não vi de onde saiu aquele carro!
O corpo oscilava já sem qualquer espasmo. Punhos cerrados, pés relaxados. Escorrendo. Pingando. Merda, sêmen e urina. Este demorou um pouco mais, sofreu mais, devia merecer mais. Estava cansado, não lhe deu a morte rápida.
Hoje estava cansado de cavalgar ombros. Deixou de fazê-lo quando passou dos cem. Baraço atrás de baraço havia semeado o campo com suas árvores de frutas mortas. O dia foi longo, perdeu as contas dos condenados. Estava cansado.
Pendurar as crianças o incomodou, mas cuidou de não olhar em seus olhos e o trabalho correu melhor. Deu-lhes a queda longa para que não sofressem tanto. Foi melhor para elas. Não teriam mais fome, não furtariam mais pão. Os pequenos oscilavam menos, duravam menos, cansavam menos, doíam mais.
Tempos novos de dores antigas. Menos campos e mais industrias, menos terra livre e mais campos cercados, menos trabalho, menos comida, menos homens mais ricos, mais homens mais pobres, mais ovelhas, mais lã, mais fome, mais forcas, mais execuções. Estava cansado.
O sol alongava as sombras mortas quando recebeu o pagamento. Poucas as moedas para muita semeadura. Hoje levaria pão para casa. Estava cansado.
Tarde de outono,
morto o riso, chora o palhaço.
Cai a noite cravando na carne os olhos irados.
A cama vazia conserva nos braços um perfume:
o rubro cheiro dos corpos suados.
No útero-cama se encolhe,
feto-criança que sofre e se engana:
voltar no tempo,
doces, passarinhos, uvas
um colo com aroma de bolinhos de chuva,
a dor que se esvai num lamento,
num afago ou canção.
Os olhos fecha,
pesados do orvalho
que a mente abrasada não ousa secar.
A alma liberta no tempo retorna
e a fantasia completa:
Sinos repicando ao longe,
luz do sol,
noiva no altar, festa, vinho,
corpos unidos,
uma dúvida no olhar.
Acorda num gemido
ao som de ossos que se esfregam no escuro.
O ciúme, esse falso amigo
deu-lhe um passado,
tirando o futuro,
A amada exangue
- uma arma, um estampido -
branca e bela numa poça de sangue.
Raivosa madrugada
de mil olhos opacos que acusam.
Fétido e miserável é o catre,
doentio o suor.
Choro, gargalhadas e soluços pingados.
No leito estirado
homem-monstro em pesadelos padece
Urge apagar o passado
dores, sangue, gemidos,
e numa prece o amor
que se foi num estampido,
um grito, o corpo no chão.
Os olhos desérticos
giram sem rumo,
bússolas loucas de uma
mente sem norte.
De eterno momento cativo
dos sentidos privado.
Pássaro castrado atado ao chão.
Sono e vigília
um mosaico esboçam
um vitral de ciúme e morte.
Dorme Cronos nos braços de Baco
e em delírio o crime refaz
a culpa jamais se afasta
e sempre lhe foge
o encontro da paz.
Série Microcontos: "Quando acordou, o corpo dela já estava frio!"
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