Na Boca da Caverna - UOL Blog
Inundando os sentidos

 

Os raios do sol parecem alegres ao brincar de pular as ondas. A areia, ao embalo do mar, bebe o verde, torna-se cinza e doa à espuma a sua brancura. Assim que fecho os olhos o mundo azul, verde e dourado torna-se rubro. A areia tem um toque áspero e gelado em contraste com o calor do sol. Sinto nos lábios o gosto da brisa, os restos dos beijos salgados que ganhou do mar. Inspiro e sou assaltado por uma confusão de aromas: maresia, frituras, caipirinhas e cervejas, loções de bronzear. Sons se misturam numa louca babel. Perto, gritos e risos de crianças. Ao meu lado, uma dupla de velhotas, invejosamente, fala mal das moças de biquíni. Mais ao fundo, o som de um violão em sintonia com um coral de jovens vozes. Mulheres comentam o capítulo da novela da noite anterior. O vendedor de milho tenta gritar mais alto que o vendedor de picolés. Tons mais graves discutem os resultados da rodada de futebol sem concordarem. À minha direita, resmungos de velhos embalados ao som das bolas de bocha. O grito longínquo de algumas gaivotas, brigando pelos restos de algum peixe que deu à praia, luta para sobressair ao ronco surdo do tráfego na avenida distante. Concentro-me. Forço o silêncio. Sobram apenas o quebrar das ondas. O marulho suave das águas na areia. A brisa. O Mar.

Olfato

 

O aroma suave das rosas domina a sala, e, o vermelho vivo das pétalas refletindo na luxuosa baixela tinge de fogo o metal polido. Cada peça está harmoniosamente disposta. Um exército de prata e cristal aguardando ordens sobre um bordado e alvo campo de batalhas. Nesse instante os convidados adentram a sala, um a um. A medida que chegam, como num balé ensaiado, lentamente, tomam seus lugares à mesa. Depois que todos se acomodam, aproximo-me e em silêncio busco minha cadeira. Logo, a porta da cozinha se abre e a copeira adentra a silenciosa sala, trazendo nas mãos a fumegante travessa. Assim que o primeiro prato é disposto sobre a mesa, nuvens de promessas e sabores invadem o ambiente. A medida que o perfumado vapor escapa da comida sinto,  antecipadamente, o prazer que me aguarda.

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