Na Boca da Caverna - UOL Blog
Cena do Cotidiano I

 

Preguiça de pijamas e chinelos, olhar nublado, empurro a panela sob a torneira. A água cantando no metal afasta o sono que quer teimar. Fogo aceso, água esquentando, volto a atenção para a pia. Caneca, coador e filtro, encarrapitados nos ombros uns dos outros. Equilibristas de um circo matinal em picadeiro de mármore branco. Sobre o negro pó um toque de canela. No fogo a água grita e chora. Lágrimas de vapor borbulham numa fuga inútil e se desfazem no ar. Um jorro ardente, e uma cascata que estala, crepitando, põe água e pó, num turbilhão, girando em aromática valsa, a bailar. Colorida, transformada, a antes insípida e inodora bailarina, lentamente surge. Gota a gota no princípio, tímida, acanhada. Mas, carregando em si parte do amado, rapidamente se empolga e, numa torrente negra, de assalto a caneca toma. E da união de fogo, água e pó um delicioso aroma enche o ar da cozinha.

Cronos

 

Cronos, ladrão de sonhos

Não me obrigues a calar.

 

Esperanças, planos

Febres, alegrias, medos

Noites mal dormidas

Pequenas histórias após o jantar

 

Cronos, ladrão de sonhos

Não me obrigues a ver sem tocar.

 

Colo, o saudoso colo

E entre cócegas e risos

o gargalhar de um anjo.

 

Cronos, ladrão de sonhos

Não me obrigues a amar sem dizer.

 

Tempo, fera voraz

ladrão da vida

sobram lembranças

a esperança perdida.

 

Cronos, ladrão de sonhos

Não me obrigues a sorrir querendo chorar.

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