Preguiça de pijamas e chinelos, olhar nublado, empurro a panela sob a torneira. A água cantando no metal afasta o sono que quer teimar. Fogo aceso, água esquentando, volto a atenção para a pia. Caneca, coador e filtro, encarrapitados nos ombros uns dos outros. Equilibristas de um circo matinal em picadeiro de mármore branco. Sobre o negro pó um toque de canela. No fogo a água grita e chora. Lágrimas de vapor borbulham numa fuga inútil e se desfazem no ar. Um jorro ardente, e uma cascata que estala, crepitando, põe água e pó, num turbilhão, girando em aromática valsa, a bailar. Colorida, transformada, a antes insípida e inodora bailarina, lentamente surge. Gota a gota no princípio, tímida, acanhada. Mas, carregando em si parte do amado, rapidamente se empolga e, numa torrente negra, de assalto a caneca toma. E da união de fogo, água e pó um delicioso aroma enche o ar da cozinha.
Cronos, ladrão de sonhos
Não me obrigues a calar.
Esperanças, planos
Febres, alegrias, medos
Noites mal dormidas
Pequenas histórias após o jantar
Cronos, ladrão de sonhos
Não me obrigues a ver sem tocar.
Colo, o saudoso colo
E entre cócegas e risos
o gargalhar de um anjo.
Cronos, ladrão de sonhos
Não me obrigues a amar sem dizer.
Tempo, fera voraz
ladrão da vida
sobram lembranças
a esperança perdida.
Cronos, ladrão de sonhos
Não me obrigues a sorrir querendo chorar.
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