Noite estranha, noite de dor,
e é tua mão que me fere,
não me tens mais amor?
Sou pássaro implume
e, ainda,
não posso voar.
Então, porque?
Porque tentar?
Meu débil corpo que cai,
no vazio busca abrigo.
Minha esperança se esvai,
o que fizeste comigo?
Sou pássaro,
ainda, criança
e não aprendi a voar.
Então, porque?
Porque tentar?
Onde está o abraço amigo?
A proteção que devias dar?
Por que estás bravo comigo?
Não me podes perdoar?
Sou anjo assustado
tentando,
em vão, voar.
Então, porque?
Porque tentar?
Desejava um jantar inesquecível, e, infelizmente, o foi.
Preparei tudo com o maior carinho e cuidado. Assistimos uma peça de teatro um pouco antes, para dar o tom romântico. Em seguida foram as flores, entregues na saída do teatro, quando e onde ela menos esperava; a florista colaborou, sensibilizada pelo meu romantismo. Depois, a reserva no melhor restaurante da cidade e em meu bolso aguardava, cintilante, o ponto alto da noite.
O ambiente sofisticado nos envolveu logo que entramos. A música suave, o frescor do ar condicionado, o leve aroma de madeira e flores e, claro, a gentileza do maitre que nos recebeu e guiou até a mesa, que já nos esperava com as velas acesas. Ela sorria enlevada. Estava linda. O brilho nos seus olhos me faziam sorrir tanto que chegava a doer.
Fizemos nossos pedidos, incluindo um vinho, caprichando na escolha pois a ocasião exigia o melhor. Veio o couvert e fomos deixados em paz, vigiados a distância por um zeloso garçom.
- Você hoje está cheio de surpresas! Belas surpresas, é verdade!
- E é só o começo - respondi.
- O que é que tem mais? - perguntou curiosa.
- Calma, que a noite ainda não acabou e nós nem começamos nosso jantar.
- A ópera foi maravilhosa, que músicas lindas, parece que ainda posso ouvir..
- ... uma discussão, escutou a discussão? interrompi.
- Que discussão? perguntou fazendo muxoxo – Eu estava falando da ópera.
- Tive a impressão de escutar algumas pessoas discutindo ao longe. Acho que foi na cozinha.
- Deixa isso para lá. Deve ter sido impressão sua. Vamos falar de nós. Você preparou tudo direitinho, hein?!
Tinha certeza de que escutara pessoas gritando umas com as outras, mas não queria estragar o clima romântico da noite. Notei que um dos garçons se aproximava do maitre às minhas costas e cochichava "Eles estão brigando!". "Outra vez? " perguntou o maitre, e, disfarçadamente, foi até um nicho na parede e subiu o volume do som ambiente.
- Estão tentando disfarçar, comentei.
- Quem está tentando disfarçar o que? respondeu zangada. Você nem prestou atenção no que eu dizia.
- Desculpe amorzinho! É que subiram o volume da música ambiente para disfarçar alguma coisa. Eu tenho certeza de que está acontecendo algo estranho.
- Claro que está! disse ela. Estamos num jantar romântico e você está mais preocupado com discussões de garçons e cozinheiros que comigo. Isso para mim é suficientemente estranho!
- Tem razão, desculpe! respondi envergonhado. O que você estava dizendo?
- Que depois de tanto tempo de namoro, é muito gratificante ver você ainda ter esse romantismo todo e preparar uma noite como esta. Isso mostra que você dá valor aos meus sentimentos. Que se preocupa em me fazer fel...
- Um grito, deram um grito? interrompi.
- Que grito? respondeu brava. Você não estava prestando atenção no que eu falava, de novo.
- Desculpe, estava sim, mas me assustei com o grito. Acho que veio da cozinha.
-Não ouvi grito nenhum. Se era para ficar falando da cozinha por que me trouxe aqui?
- Deve ter acontecido alguma coisa grave. Os seguranças correram todos para a cozinha.
- Quero ir embora! choramingou. Você estragou tudo!
-Não, não, desculpe, prometo que não vou mais prestar atenção nisso. Eu preparei tudo há tanto tempo. É para ser uma noite única. Veja os garçons estão servindo os pratos.
Ela não respondeu, enquanto o garçom nos servia. Eu ainda achava que estavam agindo de modo estranho, mas evitei comentar.
Prestei mais atenção a ela, enquanto comíamos, e aos poucos foi se acalmando. Com um rabo de olhos continuei vigiando a movimentação dos funcionários do restaurante, mas mantive-me alerta para não fazer mais comentários infelizes. Dava para perceber a troca de olhares entre o maitre e os garçons. Estavam sérios e preocupados.
Da posição em que nos encontrávamos pude ver quando entraram furtivamente dois policiais e um para-médico. Os garçons fizeram uma parede de corpos junto à porta da cozinha, mas pude ver claramente a movimentação.
Fiquei quieto. Não poderia arriscar mais nenhum comentário sem por em risco toda a noite. Preferi deixar de lado toda aquela confusão, afinal não tinha nada a ver conosco, apesar de reparar que os garçons ficavam andando por entre as mesas, lentamente, sem parar, olhando nos pratos servidos. Pareciam procurar algo.
Achei que já era hora do "gran finale", quanto antes fossemos embora, melhor, e tirei do bolso a caixinha de jóias.
- Esta é a razão de tudo o que preparei para esta noite! disse meio atrapalhado, sem conseguir lembrar o discurso que ensaiara.
- Quer se casar comigo? balbuciei entregando-lhe o presente.
Seus olhos brilharam. Ao abrir a pequena caixa lágrimas de alegria refletiram o brilho do diamante do anel.
- Oh! Bem que eu estava desconfiada de todo este romantismo! É lindo! Mas, para dar sorte, você é que tem que colocar no meu dedo!
Segurei, delicadamente, suas mãos sobre a mesa e saboreei o momento colocando o anel lentamente. Ela olhava embevecida o anel que ia adornando, aos poucos, seu lindo dedinho.
Meu olhar, fixo no êxtase em seu rosto, bebia ávido as suas reações. Por essa razão não percebi que havia algo errado.
O olhar dela, dirigido às nossas mãos sobre a mesa, foi atraído por algo na travessa com os restos de nosso jantar.
Como que em câmera lenta pude ver seu rosto mudando de alegria para horror até que retirou a mão bruscamente com um grito abafado.
Olhei para baixo e vi, enojado, um dedo indicador boiando no resto de molho e que apontado para mim parecia me acusar:
- Você conseguiu, realmente, um jantar inesquecível!
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