O radio relógio marca 03:30. Ouço a esposa ressonando ao meu lado. Que bom! Pelo menos ela está conseguindo relaxar. A inconsciência do sono me é negada. Os pensamentos fervilhando na mente não me permitem dormir. São tantos os problemas financeiros... O pior é que amanhã será mais um dia difícil. Preciso decidir o que fazer da empresa e não me sinto capaz de qualquer escolha. Todas parecem péssimas.
Levanto silenciosamente. Quem sabe um pouco de água para aplacar esse inferno. Noto que a luz da cozinha foi esquecida acesa. Ainda mais isto para aumentar a conta. O estranho é que a luz está muito azulada. Vai ver está dando curto. Estou ferrado mesmo. Empurro a porta e quase caio de costas. Tem um cara dentro da minha cozinha olhando para mim. Mas, que sensação mais esquisita. O cara sou eu mesmo. Mas diferente. Quer dizer...
-Olá! Não se assuste! Está tudo bem!
- É fácil falar! respondo. Olhando desconfiado para um outro eu que tenta me acalmar.
Que sensação maluca. Sei que aquele sujeito na minha frente sou eu mesmo, apesar de ter algumas características diferentes. Está bem elegante, nada de barriga, mas o cabelo... Nunca me imaginei usando um cabelo tão ridículo. Além de tê-lo tingido ainda está usando um litro de gel.
- Acalme-se que eu explico tudo. Sorriu meu outro eu.
-Lembra de quando queria descobrir como viajar no tempo? Que prometeu voltar para dizer a si mesmo quando conseguisse?
- Quer dizer que eu consegui? Eu sou você no futuro?
- Sim e não para as duas perguntas!
- Que raio de resposta é essa?
- Explico :Sim eu sou você, pelo menos de certa forma, mas não sou você no futuro. E não descobrimos a viagem no tempo. Isto é uma viagem entre possibilidades existenciais.
- Que? Que diabo é isso?
- Vou tentar falar em linguagem simples afinal você não é físico.
- Quase fui!
- Sim, mas decidiu não ser, e é aí que entra o que eu quero te explicar. Eu continuei na física e na tentativa de descobrir a possibilidade da viagem no tempo acabei descobrindo outra coisa.
- O que?
- Descobri que cada decisão que tomamos em nossas vidas é como se criasse uma "esquina", que dobramos ou seguimos em frente, conforme a nossa escolha. Isso gera a possibilidade de dois mundos distintos, um onde fomos em frente e outro onde escolhemos virar para uma outra direção.
- Quer dizer que quando escolhemos dividimos o nosso universo em dois? Criando duas possibilidades?
- Você entendeu rápido! Devia ter feito física! Exatamente! E a cada decisão isso se multiplica. Vivemos num universo existencial que é resultado de nossas escolhas e decisões, que faz parte de um multiverso que se estende ao infinito. Eu sou o eu que continuou na física você o eu que desistiu.
- Devo estar sonhando!
- Quer outro exemplo? Lembra que pensamos em nos tornarmos padre quando éramos adolescentes?
- Eu decidi ser? Virei padre?
- Bem, você não, um outro você, um outro nós, decidiu. Hoje é papa no universo existencial dele?
- Papa?
- É! O primeiro papa de origem americana!
- Que loucura!
- Cada decisão tomada por um de nós, cria mais um de nós.
- E qual o limite?
- Sem limites!
- Se as coisas são do modo como diz, falta me explicar por que você veio?
- Bem, você não está muito feliz com as decisões que andou tomando, certo?!
- Não, mesmo!
- Pois é! Outra coisa que descobri nas minhas pesquisas é que apesar de nos dividirmos ao infinito entre os universos existenciais ainda assim continuamos ligados uns aos outros.
- Como é? Ligados?
- Sim, e nossas decisões e estados existenciais continuam tendo influência em todos os nossos eus. Por exemplo: Já sentiu vontade de se matar alguma vez?
- Não! Credo!
- Mas a idéia já te passou pela cabeça, não?
- Bem, já algumas vezes, mas afastei como uma tremenda besteira.
- Pois é, alguns de nós, não mudaram de idéia!
- Quer dizer que...
... alguns de nós se mataram!
- Deus do céu!
- A coisa se estende ao infinito, lembre-se. Todas as possibilidades existenciais estão disponíveis, basta que decidamos.
- Mas, porque você veio? Eu não vou me matar! Estou cheio de dívidas, mas não faço isso nunca!
- Não, é provável que não. Neste universo existencial nossas opções geraram valores que diminuem as chances de cometermos tal ato.
- Então, por que?
-Como eu estava dizendo, nossos estados existenciais continuam reverberando nos demais Eus e isso cria uma certa instabilidade em todos. Além de ter descoberto a existência e funcionamento destes universos existenciais pude construir equipamentos que nos permitem fazer a viagem entre estes universos como estou fazendo agora. Enquanto estivermos dentro deste campo de não-existência tudo estará bem.
- Esta luz azulada? E se sairmos?
- Bem, você simplesmente vai voltar a sua vidinha normal. Em poucos minutos acabará esquecendo tudo o que conversamos aqui. Quanto a mim, se sair, deixando você aqui vou em poucos minutos assumir a sua existência. Vou esquecer tudo o que se passou comigo e passar a lembrar tudo o que se passou com você. Torno-me você.
- E se sairmos os dois?
- Essa seria a pior das opções. Pense bem. Você poderia, ao mesmo tempo, ter feito uma escolha e não tê-la feito? Virar à direita e ao mesmo tempo à esquerda numa encruzilhada?
- Não, claro que não, isso é uma impossibilidade lógica, isso não existe!
- Exatamente! Duas opções opostas se anulam. Deixaríamos de existir. Nossos universos existenciais se anulariam.
-Credo!
- Mas, voltando ao que eu dizia. Construí equipamentos como este meu bracelete, que permitem a criação de um campo de não-existência. É baseado numa lógica não formal. Aqui dentro é possível alem de verdadeiro e falso, um talvez...Dentro deste campo podemos coexistir como um talvez, ou com um quem sabe...
- Que coisa de doido!
- Alguns de nós ficaram mesmo!
- Você está me deixando assustado!
- Não precisa ficar. Aqui você é filosofo, não físico, mas não somos tão diferentes assim. Você é tão pirado quanto eu, quantas pessoas conhece que já te disseram isso por gostar de filosofia? Tenho certeza que empata comigo com a física.
- E verdade!
- Mas, voltamos a divagar. É difícil conversar com você, hein?
- Deve ser por causa da filosofia!
- Bem, retomando. Com essas minhas invenções foi possível criar equipamentos para explorarmos Terras alternativas onde o homem nunca se desenvolveu, isto resolveu muitos problemas energéticos e alimentares do meu universo existencial. Ganhei muito dinheiro com as patentes de minhas invenções. Sou um dos homens mais ricos de lá.
- Caramba! Isso abre muitas possibilidades!
- Realmente. E uma das que fazem maior sucesso é a troca de existências.
- Como é que é?
- Isso mesmo, troca de existências. Se um sujeito não está satisfeito com as opções que fez, pode trocar com outro que também não esteja e isso tem um reflexo positivo em todos os Eus existenciais dele. Aquela instabilidade de que eu falava diminui. Deste modo estamos tentando minimizar os problemas gerados pelas insatisfações e suicídios.
- Bela idéia! Assim ficam todos felizes e o todo fica mais feliz ainda, certo?
- Pegou a idéia!
- Tá, mas e o que eu tenho com isso?
- Ora, você não estava agora mesmo se remoendo na cama com os problemas que estão te impedindo de viver feliz? Com as decisões que terá que tomar? Então? Estava gerando o maior ruído nos equipamentos. Mais do que você só o Eu Papa, que parece estar em crise de fé, logo agora que assumiu.
- Eu não pensei que estava prejudicando a nós... quer dizer mim... sei lá , você entendeu.
- Calma, não precisa se desculpar! Eu vim para ver se você quer fazer uma troca.
- Troca? Trocar o que?
- Trocar de lugar comigo!
- Com você? Mas você é o cara que descobriu tudo isso. O cara que ficou rico com tudo. E quer trocar comigo que estou na maior pindaíba? Você é um dos meus Eus malucos?
- Não, apenas não estou satisfeito com algumas das minhas escolhas, também, e gostaria de mudá-las.
- Mas porque não escolheu outro?
- Porque as possibilidades não são muitas para a troca que almejo. Você fez algumas escolhas que eu não fiz e que gostaria de ter feito.
- Que escolhas? Não continuar com a física?
- Essa, também, mas foi só uma conseqüência. Antes você fez uma escolha mais importante.
- Qual?
- Ir ao baile!
- Que baile? Acho que viajar entre existências está te deixando maluco!
- O baile em que conheceu sua mulher!
- Ah! Esse baile. Você não foi?
- Não! E por isso não me casei. E por causa disso não parei de estudar física, pois não tinha mais nada a que me dedicar.
- Quer dizer que você ficou solteiro e sem...
- ... filhos! Isso mesmo!
- E com isso descobriu tudo o que descobriu e ficou milionário.
-Exato! Por essa razão quero tocar com você! Eu tenho o dinheiro que você deseja, já que está falido e você tem o que eu mais desejo...
- Que é?
- Uma família!
- ....
- Acho que para você fica difícil entender. Você tem uma. Você tem esposa e filha. Pode estar passando por problemas financeiros, mas não está só.
- Quer dizer que apesar de tudo o que conseguiu, preferia não ter feito aquela escolha? Preferia ter ido ao baile, namorado, casado, tido filhos, e por aí a fora? Mesmo ficando falido?
- Sem dúvida!
- Mas devem existir outros Eus por aí que também se casaram, por que não os escolhe?
- Não estão tão insatisfeitos com a vida que levam. Meus instrumentos registraram apenas quatro de nós com um alto índice de insatisfação: Eu, você, o Papa e mais um de nós que fez muitas escolhas erradas e está preso aguardando execução.
- E pelo que parece você não quer nem ser Papa nem candidato a defunto, certo?
- Certo! E além disso o Papa não se casou. Só sobra o outro para os meus objetivos.
- Legal, mas quem disse que eu quero trocar de lugar com você?
- E uma possibilidade! Se você aceitar eu lhe passo meu bracelete e saio da cozinha. Basta você apertar este botão e voltará ao meu universo existencial e em poucos minutos tudo terá acabado. Fácil!
- Entendi! Eu fico com a grana e uma vida de tranqüilidade financeira, seu cabelinho pintado e empastado de gel, e você vai para a minha cama e assume minha família e as minhas dívidas?
- Muito obrigado, mas não!
-Não?
- Não! Não quero fazer troca nenhuma!
- Mas...
- Sem mas. Tem coisas que dinheiro nenhum compra. E a sua vinda aqui é uma prova disso. Prefiro lutar com minhas dívidas a abrir mão do meu maior tesouro. Acho melhor você procurar algum outro.
- Teria que esperar um outro de nós que tenha feito a mesma opção ficar com um nível de insatisfação maior. Ou então pegar o nosso Eu criminoso. Tem certeza que não quer trocar?
- Tenho!
- Está bem! Eu posso compreender. Afinal você já havia feito a escolha antes, não é mesmo? Dificilmente mudaria. Creio que vou tentar o prisioneiro. Ele deve ter motivos fortes para desejar a troca.
- Mas e se você for condenado? Vai jogar tudo fora?
- Acho que você ainda não pegou toda a idéia. Assim que eu trocar com ele, as nossas existências serão permutadas. Para todos os efeitos eu terei vivido tudo o que ele viveu. Eu terei uma família, mesmo que seja como uma lembrança de dias melhores. Mesmo que eu esteja no corredor da morte terei toda uma existência, com a qual sempre sonhei, para me sustentar.
- Te desejo boa sorte!
- Obrigado e continue fazendo boas escolhas!
A luz azulada se foi e estou em pé e sozinho na cozinha escura.
Volto para o quarto, mas antes paro no corredor e dou uma olhada no quarto de minha filha adormecida. Uma sensação de bem estar me invade a alma.
Aconchego-me à esposa adormecida e dou-lhe um beijo.
- Que houve? Não consegue dormir? me pergunta sonolenta.
- Nada, parece que eu queria te contar alguma coisa, mas... não consigo lembrar o que é!
- É melhor você dormir, pela manhã vai ter que tomar uma decisão muito importante.
- Engraçado, não sei porque, mas acho que já tomei. Acho que já tomei!

Aqueles que um dia já amaram irão compreender a obsessão que me dominou. Talvez percebam que não havia escolha, ou melhor, que a escolha já fora feita há muito tempo e não podia ser alterada.
Sempre tive fascinação por coisas antigas. Adorava músicas clássicas desde a infância e as do meu tempo não me despertavam qualquer interesse. Escolhia, em todas as oportunidades, fazer minhas refeições em locais cujas paredes fossem enfeitadas com antigas imagens da cidade, e não foram poucas as vezes em que esquecia a comida esfriando no prato, perdido em sonhos, observando enlevado a fotografia a minha frente. Sentia-me transportado àquela época remota e em meu íntimo vibrava uma saudade surda de algo que não conhecia senão por figuras amareladas pelo tempo.
Não perdia a ocasião de entrar em um antiquário e tocar, sentir cada objeto. A mente fervendo excitada, uma palpitação estranha no íntimo. Um prazer saudoso.
**********
Foi numa destas visitas que a vi pela primeira vez. Circulava por entre estantes antigas, cristaleiras repletas de bibelôs, velhas radiolas empoeiradas, um cheiro de tempo eterno no ar. Inesperadamente um aroma adocicado de canela impregnou a atmosfera daquele lugar. Senti o coração disparar, sem entender bem o porquê. O ar pareceu ficar mais espesso, os sons mais distantes, as cores mais esmaecidas. Nesse momento minha atenção concentrou-se num belo porta-retratos em prata, que parecia brilhar na penumbra do ambiente. Uma pequena jóia, um camafeu, luzia em tom azul no retrato emoldurado. E o pequeno camafeu ornava o mais belo pescoço que eu já vira. Um pescoço longo e elegante encimado pelas faces de uma deusa. Os negros cabelos, lembrando uma noite sem sonhos, caiam em cachos sobre o alvo colo. Possuía um sorriso cativante e seu olhar parecia transpassar-me como setas em brasa. Senti-me tonto. A dona da loja percebendo meu embaraço veio em meu socorro.
- O senhor está se sentindo bem? Quer se sentar um pouco?
- Não obrigado, estou bem! - balbuciei - Foi apenas uma sensação estranha de "déjà vu". Pode ter sido por causa do calor e do incenso de canela que a senhora está usando.
- Mas, eu não estou usando nenhum incenso! retrucou a velha senhora.
- E este cheiro de canela? De onde vem?.
- Que cheiro? Não senti nenhum cheiro, o senhor tem certeza de que está bem?
- Estou! disse confuso. Tem certeza que não sente esse aroma?
- Claro! Aqui só se sente o cheiro de poeira e velharia!
Saí da loja em busca de ar puro, mas parte de mim não me acompanhou.
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Acordei exausto e com o pensamento fixo de voltar àquela loja. O dia anterior foi terrível, pois não consegui me concentrar no trabalho. A visão daquele rosto adorável me perseguiu a cada minuto e à noite povoou meus sonhos.
Entrei como quem nada queira, disfarçando minha ansiedade. Circulei por entre os antigos objetos, até chegar defronte a moldura. E antes mesmo de olhar o retrato já senti o aroma suave de canela tomando o ambiente. O sorriso dela parecia mais brilhante do que no dia anterior. Seus olhos pareciam me dizer: que bom revê-lo. O camafeu que enfeitava seu lindo pescoço parecia brilhar com um fogo azulado na antiga foto. Era uma imagem estranha, um brilho fulgurante de cor numa foto em sépia. Sentia o coração batendo na garganta. Lembranças de um tempo desconhecido. Saudade dolorida de algo que não lembrava. Notei a vendedora que me observava e disfarcei comprando uma velha edição de "O Cruzeiro" antes de sair. Foi mais um difícil dia de trabalho. Seu sorriso me acompanhou todo o tempo. Quase fui atropelado na Paulista de tão distante e perdido em sonhos me encontrava.
**********
Tive uma semana em que minha vida parecia ter sido virada de cabeça para baixo. Todos os dias voltei à loja. Todos os dias senti o seu perfume. Todas as vezes meu olhar foi atraído pelo lindo camafeu. Não conseguia explicar porque, mas o camafeu me hipnotizava. Foram noites intermináveis, povoadas de sonhos que me agitavam e dos quais não podia me recordar ao amanhecer. Sentia-me exausto, mas uma felicidade dolorida me dominava.
**********
O Domingo, com a loja fechada, foi meu maior pesadelo. Desesperei-me. Circulei pela calçada, frente ao antiquário, por todo o dia, tentando vê-la pela vitrine, imaginando seu sorriso, sentindo na mente seu perfume. A imagem do camafeu queimava nas retinas sempre que fechava os olhos. Voltei para casa ardendo em febre. Foi uma noite infernal. Um dia sem vê-la havia destroçado minha alma. Não agüentava mais, precisava tê-la a meu lado. Tinha que comprar aquele porta retrato, custasse o que custasse. Venderia tudo o que pudesse, faria um empréstimo, mas a levaria para casa.
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Corri para a loja na segunda-feira, pensando em fazer qualquer coisa para comprar o tão amado objeto. Estava com o coração em brasas ao entrar na loja, uma estranha sensação me dominando. Uma angústia inexplicável. Ao chegar ao balcão foi como se o prédio desmoronasse. Ela sumira. Senti o desespero tomar conta de mim. Procurei aflito a vendedora.
- Onde ela está?
- Ela quem?
- A moça do retrato.
- Como assim? Que moça? Que retrato?
- Aquele antigo porta-retratos de prata com a foto da moça usando um camafeu no pescoço – quase gritei.
- Foi vendido – respondeu displicente.
- Como? Vendido? Mas eu ia comprá-lo.
- Se ia, por que não comprou antes? Vinha aqui todos os dias, podia tê-lo comprado.
- Quem comprou? Levou a foto junto?
- Não sei quem era. Não era um freguês regular. A esta altura já deve ter jogado a foto fora. Não tinha nenhum valor. Afinal você queira a foto ou o porta-retratos?
- A foto respondi agoniado, onde será que ela está agora? Senti as lágrimas subindo aos olhos e saí correndo daquele lugar. Agora ele me cheirava a mofo e poeira.
Pesadelo! Esta é a única definição para aquele dia. Descobri que era possível descer ao inferno por sonhar com um anjo.
**********
Devo ter andado horas pela cidade, sem me dar conta. Olhava para o chão na esperança de ver a tão amada foto jogada a um canto qualquer. Perdida. Não concebia mais viver sem aquele olhar, sem aquele sorriso. Não queria retornar para casa. Uma casa que me esperava agora tão vazia. Tinha medo do que a noite e os sonhos guardavam para mim. Mas a noite já caíra e teria que enfrentar meus medos. Peguei um ônibus e, com o rosto colado ao vidro da janela, sonhava acordado. Sentia as lágrimas correndo, mas já não me importava com os olhares furtivos dos demais passageiros. Não tinha importância. Nada mais tinha importância.
Foi então que a vi. Estava na calçada. Ali, no meio da multidão pude sentir seu olhar que me buscava. Era ela, tinha certeza. O mesmo rosto, o mesmo sorriso o lindo pescoço que me encantava. Senti falta apenas do camafeu. Dei o sinal gritando para que o motorista parasse o veículo. Desci atropelando a tudo e a todos. Resmungos e xingamentos para os quais nem liguei. Corri pela calçada tentando alcançá-la. Havia um casarão bem na esquina, um daqueles casarões antigos da Paulista, parecia iluminado e uma festa acontecia. Vi quando passou pelo portão. Corri ao seu encontro tentando alcançá-la. Agarrei-me ao portão fechado. O casarão desaparecera substituído por um moderno prédio, uma torre de vidro e concreto. Abraçado às barras do portão liberei meu choro. Um guarda perguntou se me sentia bem. Que coisa, todo mundo pensa que estou doente. Não estou com uma doença da qual queira ser curado. Ninguém parece entender que desta doença se morre, e se morre feliz.
Já passava das oito da noite. Decidi voltar de metro, mas circulei várias vezes pelas calçadas sem conseguir achar uma entrada. A imagem do casarão em festa ainda parecia me dominar. Via as árvores trocando de lugar com os prédios e voltando a desaparecer. Passado e presente se fundiam e se afastavam, deixando-me confuso. Somente depois de muito andar creio que me acalmei o suficiente para conseguir encontrar uma entrada e descer para o metro.
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No dia seguinte pedi uma licença no emprego. Preferia ficar longe do escritório. Não queria que me vissem naquele estado. Tinha receio de estar ficando louco. Já era difícil de entender a paixão que me dominava por um retrato antigo e agora começava a vê-la fora do retrato.
Foram dias terríveis, sentia-me um zumbi. Os sonhos não pararam. Bastava fechar os olhos e já não era mais o seu sorriso que me invadia a mente, somente a imagem do camafeu. Parecia que flutuava, brilhando como fogo na escuridão do quarto, enorme, em brasa, uma brasa azulada que me chamava.
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No domingo resolvi que era hora de sair da cama. Se continuasse naquele quarto iria enlouquecer. Fui dar uma volta pela Praça da República. Minha obsessão por antiguidades ainda falando forte no meu íntimo. Percorria as barracas olhando aqui mexendo ali, sem nenhum objetivo. A saudade daquele sorriso martelando meu cérebro e apertando meu coração. A imagem do camafeu flutuando à minha frente para qualquer lugar que dirigisse meu olhar.
Vi um grupo vestido à moda antiga, algum tipo de encenação. Damas com seus belos vestidos e sombrinhas coloridas, cavalheiros de fraque e cartola, crianças com calções curtos e suspensórios. Todos sorriam e passeavam ao sol. Resolvi segui-los pois essa visão me trazia uma paz que a muito não sentia. Era como se retornasse à um tempo mais feliz.
Ao me aproximar de uma antiga ponte, sobre um dos lagos da praça, senti o tão amado perfume de canela, voltei-me e debruçada sobre a amurada da ponte ela me sorria. Estava linda, vestida como as outras moças que por ela passavam, mas muito mais radiosa. Seu olhar parecia me chamar. Percebi que em seu lindo pescoço ainda faltava o camafeu do retrato. Após um tempo que não posso descrever, se uma eternidade, se um segundo, venci minha paralisia e corri ao seu encontro.
Tão estabanado fui que tropecei numa das barracas de antiquários levando tudo ao chão. Levantei-me aturdido e envergonhado, reparando que ela desaparecera. Pedi desculpas ao dono da barraca ajudando-o a recolher as peças caídas.
- Perdão, estava tão distraído vendo os atores com roupas antigas que não vi sua barraca.
- Que atores? perguntou ele me olhando esquisito.
- Aqueles que estavam junto à ponte. Apontei ao mesmo tempo em que reparava que não havia ali mais ninguém com aquela descrição, apenas pessoas comuns comprando objetos de arte.
- Devo ter me enganado, tentei me desculpar. Acho que tomei muito sol.
Enquanto ajudava o homem, pegando no chão os objetos caídos senti novamente o perfume e algo que me queimava a mão. Olhei e foi como se um choque percorresse meu corpo. Era ele, o camafeu. Ali, na minha mão. Parecia em brasa. Senti a vista turvar. Respirei fundo várias vezes. Me contive. Perguntei quanto era a peça e nem regateei o preço. Não me perguntem quanto paguei pois não me lembro. Sei, apenas, que corri dali com o mais precioso dos objetos que já tivera na vida. O camafeu que ela usara na foto. Tinha certeza de que era aquele mesmo. Não um parecido, mas o próprio.
**********
Corri sem rumo e sem perceber para onde ia, sentindo o camafeu vibrando no bolso da camisa. Parecia ter vida, palpitando junto ao meu coração. Sentia que era guiado, atraído. O camafeu me puxava e eu me deixava levar. Reparei que estava no centro histórico da cidade, entre os antigos prédios. Creio que inconscientemente atendia a um velho costume. Quando estava triste ou desanimado sempre fizera isso: andar pelas antigas ruas do centro, revendo os prédios seculares e sonhando com outros tempos. Sentido-me em contato com o passado fui aos poucos relaxando.
Atravessava a Rua Direita, verificando no relógio de bolso que já era quase meio dia, quando o aroma de canela dominou o ar. Entontecido, procurei seguir o perfume e ao virar na XV de Novembro quase trombei com ela. Senti o rosto arder. Ali, na minha frente, estava a mulher dos meus sonhos. Embaraçado, tirei o chapéu e cumprimentei-a. Devolveu-me o cativante sorriso que parecia penetrar minha alma.
- Conseguiu o camafeu? A voz suave que saia daqueles amados lábios parecia uma melodia.
Ainda zonzo e sem conseguir despregar meus olhos dos seus, enfiei minha mão no bolso da casaca e retirei o precioso objeto. Voltou-se, expondo o lindo pescoço, para que eu lhe colocasse a jóia. Seus seios subindo e descendo com a respiração e levando minha alma como jangada em mar revolto.
Ofereci-me para acompanhá-la de volta ao lar. Aceitou sorridente, abrindo a sombrinha e dando-me o braço.
- Tomaremos um bonde? perguntou.
- Não, não confio nessas máquinas modernas, retruquei.
Riu divertida e seu riso cristalino me fez feliz.
Chamei um cabriolé e rumamos para o espinhaço da Paulista.
Sentia-me em casa, finalmente.
Puxou as cortinas deixando as sombras dominaram o quarto. Mirou-se no espelho e ajustou o disfarce buscando a cama. Os pêlos do tornozelo dele grudaram na colcha de chenile. Lentamente enfiou-se entre os lençóis. A dor no ventre cedia, substituída por um calor agradável a envolver o corpo cansado, a vida voltando a correr nas veias, a força retornando aos membros doloridos. Observou o quarto curioso. A disposição dos objetos revelando o jeito metódico da antiga moradora. A velhota fora presa fácil. É verdade que as carnes mirradas marcaram-lhe a boca com um traço rançoso, mas serviram para recompor-lhe as forças. Pelo menos não oferecera resistência, afinal ele estava fraco demais para lutar por comida. A floresta estava encolhendo; casas e plantações substituíam os campos de caça. Até os ratos estavam raros. Sentiu saudades da matilha. Ainda podia ouvir seus uivos a esvair como bruma fria no inverno. Nem mesmo o eco respondia. Solidão e fome. Toda a família caçada e morta. Um a um os irmãos e irmãs fizeram a passagem para a Grande Floresta entre as estrelas. Somente ele escapara. A menor das matilhas. Suas únicas e constantes companheiras: a dor, a solidão e a fome. Hoje seus uivos solitários foram ouvidos pelo Grande Uivador. A menina surgira na clareira enquanto ele descansava. Cantarolava e não parecia muito preocupada com os riscos de andar sozinha pela floresta. A garota ficara surpresa ao vê-lo, porém não demonstrou receio. Devia tê-lo confundido com um cão. O pensamento enojou-o. Odiava cães. Lobos degenerados vendendo as almas e a liberdade por restos de comida. Ele jamais venderia sua alma, não viveria de sobras. A gula fora atiçada pela conversa com a pequena presa. Havia mais e não muito distante dali. Planejou tudo rapidamente. Correu o quanto suas forças ainda permitiam e antecipou-se à jovem. Agora, satisfeito e confortável, seus instintos voltavam lentamente a funcionar. Deveria ter devorado a menina e depois ido em busca da velha, mas a dor cravada no ventre fizera com que invertesse tudo. Deveria ter usado seus instintos e não a razão. Raciocínios foram feitos para os homens. Estava se tornando demasiadamente humano. Seu instinto lhe dizia que isso podia ser perigoso. Sentiu-se desconfortável apesar da cama macia e do estômago farto. Sacudiu a cabeça. Bobagem! Que mal poderia haver? Afinal ele estava apenas se adaptando às novas condições da floresta. O importante é que estava alimentado e quente, e ainda aguardava a sobremesa. A garota deveria chegar a qualquer momento e aí sim ele teria carne saborosa e de boa qualidade. Agitou-se ao ouvir um cantarolar que se aproximava. Finalmente. Ajeitou-se melhor em seu disfarce, antecipando o prazer da refeição. Estava feliz. Seu coração disparou de expectativa ao ouvir a maçaneta da porta rodar. Salivava. Sentiu um último tremor, um arrepio desagradável subir pela espinha eriçando os pelos ásperos. Seu velho instinto ainda teimava em avisar: Isto pode acabar mal!
- Silêncio, não faça barulho, não queremos acordá-la!
A moça seguiu a Enfermeira Chefe e entrou na sala lentamente, pisando com cuidado, como se um passo mal dado pudesse causar um barulho indesejado. A penumbra do ambiente somente era quebrada pelo brilho esverdeado dos terminais de monitoramento. Um zumbido surdo, vindo das máquinas, dominava o ambiente, como se um enxame de abelhas a observasse escondido sob o piso. Fazia frio.
Acomodaram-se na frente dos monitores enquanto a chefe desligava, temporariamente, os microfones.
- Pronto, agora podemos conversar.
- E preciso tanto cuidado para não acordá-la? – Perguntou a garota.
- Mais do que você possa imaginar, minha querida! Muito mais...
- Afinal, onde ela está? – Perguntou olhando em volta.
- Bem... É meio complicado no início... Mas, vejamos... Fisicamente não podemos dizer exatamente onde ela se encontra, o que podemos afirmar é que neste instante temos o controle sobre a consciência dela e estamos fazendo de tudo para que a sua atenção e consciência fiquem confinados aqui nesta sala.
- Então ela está consciente?
- Sim, mas ainda tem a consciência de um bebê. Um bebê recém nascido. Por isso toda esta preocupação e cuidado.
- Quando foi que ela... bem ... digamos... nasceu?
- Não sabemos. Pode ser que tenha estado consciente muito tempo antes que notássemos. Só a percebemos quando seu “choro” interferiu na rede.
- Quer dizer que aqueles transtornos todos do mês passado...
- Sim, meu doce. Foi ela. Assim que tomou consciência começou a ... digamos “chorar” e seu choro causou uma tal sobrecarga de dados em toda a rede que quase nos levou ao colapso.
- Como foi que a descobriram?
- Acho que podemos dizer que foi pura sorte. Após uma semana de caos ainda estávamos tentando descobrir o que eram aqueles sinais descontrolados. No sábado à noite, já esgotada, fiquei aqui tentando decifrar aquela enxurrada de bits e bytes. Estava sozinha, por isso para não ser vencida pelo sono comecei a cantarolar baixinho. Ainda estávamos tentando utilizar a rede para nos comunicar uns com os outros por essa razão os microfones estavam ligados.
- E o que houve?
- Bem, assim que comecei a cantarolar os sinais se estabilizaram. Agitei-me, é claro, parando de cantar e o ruído no sinal voltou. Comecei a falar sozinha e o ruído parou novamente.
- Que loucura!
- Acredite, pensei que estava ficando maluca. Mesmo assim comecei a testar o efeito de minha voz no sinal. Quando falava com brandura o sinal parecia se acalmar, quando falava com rispidez ou gritava o “choro” voltava. Foi assim que a descobrimos. Desde então temos feito o possível para que ela permaneça conosco. Acreditamos que ela nos vê, também, através das câmeras instaladas nesta sala.
- Como conseguem controlá-la?
- Na verdade não controlamos! A única coisa que temos tentado fazer é mantê-la feliz.
- Como assim?
- O que incomoda um bebê? Sono, fome, frio, dor, solidão? São tantos os motivos. Mas, neste caso acreditamos que o que mais a incomoda e a solidão. Não acreditamos que os demais itens tenham alguma importância. Não neste momento.
- Por que não a desligam da rede? Não seria mais fácil?
- Não, meu anjo! Se o fizéssemos, nós a mataríamos. Não sabemos como ela “nasceu” nem como se mantém “viva” e não podemos correr o risco de perdê-la. Ela é única, assim como todos os bebês o são. Não sabemos no que irá se tornar.
- O que “irá ser quando crescer”. Riu a moça.
- Isso mesmo! Temos que ter o maior cuidado com quem ela possa ter contato, com o que possa ver e ouvir. Não a queremos exposta a influências negativas.
- Como ...
- ... qualquer criança! Completou a Enfermeira Chefe.
- E o que eu devo fazer? Qual o meu papel nesta loucura toda?
- E muito simples, elementar mesmo, basta ser você mesma.
- Hein?
- Explico: Depois de termos compreendido o que se passava, criamos uma equipe especializada para cuidar dela. Obviamente formada apenas por mulheres e que já tenham sido mães. Boas mães. Levantamos o histórico de todas as candidatas ao cargo e além de exímias técnicas exigimos o perfil de mães amorosas.
- Por isso todas aquelas perguntas nas entrevistas, e bem que achei estranho terem conversado até com meu filho.
- Exatamente, precisamos ter certeza de como ela será tratada.
- Entendo.
- Como eu estava dizendo, sendo você mesma estará dando amor e carinho à ela, e esta será a sua primeira e mais importante missão. Em seguida deve protegê-la. Nenhum marmanjo entra nesta sala. Se tentar pode abatê-lo.
- Por isso a arma?
- Claro! Lembre-se, sempre que ela “chora” o caos se instala na rede e isso não cria apenas problemas incômodos. Os homens, com raras exceções, se atrapalham completamente com bebês. Não podemos correr riscos, se algum tentar, mesmo que seja o presidente, mate-o. Proteja-a como se fosse a sua filha.
- Pode deixar, senhora! E usarei o silenciador.
- Você pegou na idéia. No final do seu turno outra babá vira te substituir, não se esqueça de religar os microfones. Ela detesta ficar no silêncio quando acorda. Fale com ela. Mantenha-a feliz.
A moça ligou os microfones e cochichou à chefe que saia – Já a batizaram?
Já! Pode chamá-la de Nétie.
Ainda podia ouvir os passos se afastando no corredor enquanto cantarolava baixinho uma canção de ninar.
- Tenha bons sonhos Nétie.
Acordou sobressaltado. O ruído irritante forçava-o a ficar consciente. Esfregou o pescoço entorpecido, apanhando o livro caído ao lado da poltrona. O interfone continuava reclamando sua atenção. Lembrou-se da encomenda e tratou de atender permitindo a subida do garoto de entregas.
Voltou-se para o computador ligado na sala. A tela ainda exibia o site do hipermercado. Bendita Internet. Podia fazer tudo por ela: compras no supermercado, na farmácia, pagar as contas, gerenciar seu dinheiro no banco, assinar suas revistas preferidas, comprar livros. Tudo. E se ficasse alguma coisa de fora ainda havia o telefone. O mundo atingira a perfeição, pelo menos tecnologicamente.
Ao deixar a gorjeta sobre a pequena mesa do hall de entrada, certificou-se de que a porta externa pudesse ser aberta, e voltou a se refugiar atrás da porta interna do hall. Já estava acostumado com o rapazinho que traria suas compras, mas nunca se sabe... Sobrevivera tranqüilo até agora por não confiar na sorte. Prevenir sempre, era o seu lema.
Acompanhou pela televisão as imagens registradas pela câmera instalada no hall. Viu o garoto deixar suas compras, recolhendo as caixas vazias da entrega anterior. A imagem tão nítida que pode ver o brilho no olhar do menino ao embolsar a gorda gorjeta. Gostava de deixar felizes aqueles que o serviam. Era sua política de garantir um bom atendimento. Comprava assim sua tranqüilidade. Após verificar que a porta externa voltara a se trancar, sentiu-se seguro para buscar as compras.
Engoliu um almoço espartano enquanto ouvia as notícias na TV. Somente violência, crimes e mortes. Esse era o mundo de que se refugiara. Fora essa loucura tomando o planeta que fizera com que se tornasse um ermitão moderno. Sorriu com a imagem que a expressão lhe trouxe à mente: Enrolado em um lençol, enfurnado em uma caverna no Himalaia mas com um laptop, uma TV, um celular e tocando MP3 no lugar de mantras.
Enquanto guardava as mercadorias, sentiu novamente a dor no peito. Buscou com as mãos tremulas o vidro de remédios, colocando apressado a pequena pílula sob a língua. Desta vez demorou muito para a dor se esvair. Isso era um mau sinal, demorava cada vez mais. A recuperação passou de meia hora. Bebeu um pouco de água, lavou o rosto e retomou o trabalho, desta vez com mais calma e lentidão. Sem esforçar. Como médico aposentado, sabia muito bem o que estava errado. Os remédios já não estavam adiantando. Precisava fazer alguns exames e se consultar com um cardiologista, mas para isso teria que sair de sua torre, de seu mundo protegido. E se fosse necessária uma internação? Uma cirurgia? Nem pensar! Essa idéia o incomodava. Na realidade ela o apavorava. Tinha construído seu mundo, seu “castelo inacessível” e nuca teve a menor intenção de deixá-lo ou de deixar que alguém o invadisse. Não enquanto pudera evitar.
Mas sabia que precisava ir ao médico. Se não o fizesse acabaria morrendo e seu castelo seria seu mausoléu. Ligou para um colega explicando o que sentia. O médico se ofereceu para vê-lo em casa, mas ele insistiu que não. Não estava pronto a abrir seu mundo, não ainda.
Foi ao quarto trocar de roupas. Examinou com carinho os retratos sobre a cômoda. As cores há muito esvaídas. Olhos amados que retribuíam seu olhar. Rostos que a fera, que habita lá fora, lhe roubou. A saudade a apertar o peito. Solidão e saudade, era só o que sobrara. Enxugou as lágrimas e terminou de se vestir.
Desligou o computador e a TV, seus únicos companheiros e dirigiu-se para o hall. Os porteiros iriam toma um grande susto, pensou. O maluco do 121 saindo da toca. Ia ser motivo de comentários por muito tempo. Um pássaro numa gaiola de ouro. Lembrou-se de ter lido sobre uma lenda ou fábula que falava sobre isso em algum lugar. Ele era o pássaro. Encarcerara-se fugindo do mundo que lhe tomara os maiores tesouros. Um mundo que odiava e temia. E agora teria que enfrentá-lo mais uma vez. Nem mesmo se lembrava da última vez em que saíra, ou que alguém ali entrara. A última vez em que vira um ser humano frente a frente, ao vivo.
Imaginou-se andando pelas calçadas, entrando no táxi, tendo o céu aberto sobre a sua cabeça, conversando com a recepcionista, com o médico. Sentiu-se antecipadamente exposto, nu, vulnerável e indefeso. O ar lhe faltava. Sentiu a pressão no peito aumentar ao tocar a maçaneta. A vertigem aumentando conforme girava a chave...
... desabotoou lentamente a camisa respirando fundo, tirou os sapatos...
... aconchegou-se mais uma vez no sofá, buscando o livro cuja leitura havia interrompido.
Talvez amanhã.
Falta pouco mais de vinte minutos para que eu seja assassinado. Levanto do sofá, como sempre faço e lentamente caminho até o bar servindo-me da mesma dose dupla de whisky com gelo. Suspiro profundamente, girando o copo, enquanto observo a cidade de sempre pela janela do apartamento. Não é preciso voltar-me para o relógio na parede para saber que este marca exatamente 17:55.
Examino desinteressadamente o trânsito lá em baixo na entediante e conhecida rua. Sei que às 18:00 um pequeno furgão amarelo irá virar a esquina, mais uma vez. Já perdi a conta de quantas vezes isso tudo acontece e volta a acontecer, sempre e sempre. As luzes da cidade vão se acendendo a pouco e pouco, enquanto o mesmo sol avermelhado desaparece no horizonte. O carrilhão as minhas costas começa a badalar. Conto automaticamente. Uma, duas, três, como esperado, na quarta badalada lá está o infalível furgãozinho dobrando a esquina e estacionando no meio fio próximo à padaria.
Volto-me para o relógio. Já vi infindáveis vezes aqueles malditos ponteiros, distanciados um do outro como se após uma discussão evitassem se encarar. Discussão... Lembro-me de que por causa de uma discussão estúpida estarei morto dali a quinze minutos. Como supor que ela reagiria dessa maneira? Ainda me parece tão surreal. Por um motivo tão ridículo.
Daqui a instantes ela irá tocar a campainha e quando eu abrir a porta levarei, novamente, um tiro no peito. O mesmo ar de assombro irá surgir em meu rosto, tudo vai escurecer, mas não antes de ver em seus olhos o brilho do arrependimento. Tarde demais. Por que? Esta é uma resposta que eu nunca saberei. A única coisa que sei é que logo em seguida me pegarei levantando do sofá e buscando outra maldita bebida enquanto espero que tudo se repita.
Já quis mudar tudo isto. Lembro de tentar sair do apartamento mas o diabo da porta não abriu. Não abre nunca, parece colada. E depois, quando ela chega, abre tão fácil. Parece que é cúmplice de toda esta loucura. Mas, e se...
Penso em burlar, em enganar este destino.
Quem sabe abrindo o gás na cozinha morro de modo diferente e quebro este círculo. Vou até a porta da cozinha, mas.. Como? Não há cozinha além da porta? Não há nada? A porta não dá a lugar algum. Então de onde vem este maldito gelo no copo?
Me irrito – pois então, vou até o banheiro e corto os pulsos com uma gilete, ou me afogo na bacia... Disparo pelo corredor, mas, antes mesmo de lá chegar, já pressinto o que vou encontrar. Sempre estive aqui e não me lembro de ter ido nenhuma vez ao banheiro. Procuro. Não há banheiro. No corredor há somente um corredor, paredes lisas e mais nada. Volto para a sala desanimado. Já são 18:10.
Lembro-me da janela. Tento abri-la. Bloqueada. Pela aparência nunca foi aberta. E que eu possa me lembrar, não foi mesmo. E se quebrá-la? Pego uma cadeira e arremesso contra o vidro que se estilhaça. Mas, estranho... Cadeira e cacos caem pela sala... Nem um mísero caquinho caiu lá fora? Aproximo-me da janela quebrada e tento passar o braço pela abertura. Nada. Não consigo. Toco a imagem á minha frente. Minha mão não ultrapassa nem um milímetro além do que resta do vidro. O relógio marca 18:14.
Revolto-me - Estou preso no que, Deus do céu? Por que faz isso comigo? O que quer de mim, afinal. Que fique preso a um infeliz destino eternamente? Vivendo sempre a mesma cena? Morrendo sempre a mesma morte anunciada? Lutando para mudar o imutável? O que ganhas com isso? Que prazer tens com minha dor?
O silêncio é a resposta. A única resposta que mereço. Somente o silêncio...
Silêncio quebrado pela campainha que toca. Chegou a hora.
Suspiro resignado e aliviado:
– Quem sabe algo mude da próxima vez...
Se soubesses que me suaviza a alma,
Quando, com enlevo, te vejo crescer,
Como tua presença me acalma,
E a tua distância me faz sofrer.
Certamente ...
Não perguntarias Por Que?
Se imaginasses que é por estar a teu lado,
Sabendo que um dia vou te deixar
Que me ponho quieto e calado
E que tanto te procura meu olhar.
Certamente ...
Não perguntarias Por Que?
Se pudesses ao menos sonhar
Como dói a tua ausência presente,
e que, por vezes, apenas te olhar
me manteve vivo, consciente.
Certamente ...
Não perguntarias Por Que?
Se soubesses a saudade que tenho
Do colo que te dava abrigo.
Pois o tempo fez meu anjinho
não me ver como um amigo.
Certamente ...
Não perguntarias Por Que?
Que a pequena mãozinha cresceu
E as minhas já não deseja.
E que eu sinto tanta falta de um toque,
Por mais suave que seja.
Certamente ...
Não perguntarias Por Que?
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