Na Boca da Caverna - UOL Blog
Aborto

Só mesmo um aborto da natureza como esse "tal de deputado", que já deveria ter sido cassado a muito tempo, para agitar um projeto como esse.

É uma pena que ele não tenha sido abortado, pois nos pouparia de tanta vergonha.

Deu no Uol Noticias Cotidiano:

03/07/2008 - 06h00

Projeto que descriminaliza o aborto pode ser votado na próxima semana, diz relator

Claudia Andrade
De Brasília

"Autor do projeto 176, o deputado José Genoino (PT-SP) avisou que vai obstruir "o máximo possível" a votação. Seu plano é adiá-la "pelo menos" até agosto. Neste mês, após o recesso de julho, o Supremo Tribunal Federal poderá julgar o aborto de fetos anencéfalos. "Vou adiar a votação o máximo que puder, porque acho que o assunto ainda precisa de muito debate e porque a gente perde aqui", disse, referindo-se a CCJ. "

Manhã de Sol

 

Morna manhã, cálido sol nascente
brisa suave, farfalhar de árvores e panos
clima doce, perfume envolvente
pássaros, insetos, sussurros
geme o gado, ao longe, num lamento
e, perto, inquietos, no feno quente
mais perto, quem fica é a gente
bem perto, gemendo em abraço ardente.
Fada que inflama

 

Leve a névoa. Velado o vulcão.

Diáfana ninfa,
fresca fada de fogoso ventre,
fraca a fagulha,
veloz a faísca,
fogo voraz.

Leve a névoa. Velado o vulcão.

Suave fonte de fresco vinho
Vinha farta,
de forte efeito,
afaga, inflama,
leva a voar.

Leve a névoa. Velado o vulcão.

Aflita flor,
de feroz volúpia,
afoita viceja.

Vênus.
Faminta naufraga.
Vesúvio.
Num fluxo de lava.

Tédio

 

Sonolento é o tempo,
tedioso é o túmulo, solitária é a tumba.

Teto de tristes trepadeiras,
adornado de tênues teias tortas.
Porto tímido onde a vida finda

Sonolento é o tempo,
tedioso é o túmulo, solitária é a tumba.

Vasto tempo
se o teu lamento é doce
eterno todo teu sofrimento,
danoso teu doente adiar.

Sonolento é o tempo,
tedioso é o túmulo, solitária é a tumba.

O temor que tolhe teu canto triste
e tua trêmula cadência adúltera
mata todo o sentir.

Sonolento é o tempo,
tedioso é o túmulo, solitária é a tumba.

Arrastado tédio,
de tolo medo doentio,
torpe lentidão a tudo adiar.

Sonolento é o tempo,
tedioso é o túmulo, solitária é a tumba.

Dias de segundos contados em gotas tristes
Lento tempo dado, suado, a se arrastar.

Sonolento é o tempo,
tedioso é o túmulo, solitária é a tumba.

Onde a dádiva da abençoada dor?
Onde a desejada morte obter?
Tenebroso tempo deixa-me partir.

Sonolento é o tempo,
tedioso é o túmulo, solitária é a tumba.
Quem sou eu?

 

Quem sou? Não sei, não!

 

Cabeça nas nuvens

Pés no chão.

Olhos nas estrelas.

Cego o coração.

 

Quem sou? Não sei, não!

 

Neve nos cabelos.

Fogo na alma

Vontade de pedra,

mas pedra emplumada.

 

Quem sou? Não sei, não!

 

Água nos olhos.

Voz de trovão.

Alma de criança,

Memória de ancião

 

Quem sou? Não sou, não!

 

Estou sendo,

vivendo com paixão.

Zé Mané

 

Cabeça vazia.

Pé de valsa cabeçudo,

cabecinha, Zé Mané.

 

Seu papo cabeça?

Caspa, piolho, cerveja

futebol, jogo e muié.

Sem pé nem cabeça,

calo, frieira e chulé.

 

Sujeito sem jeito

só corpo, sem alma

bate no peito

empina o nariz

se a coisa aperta

com o rabo entre as pernas

se encolhe e se acalma:

- Que foi que eu fiz?

Natureza Distante

 

Nuvens...

...flocos de esperança da caatinga ardente.

 

Nuvens...

...água-viva, nutriente, da floresta verde.

 

Nuvens...

...avalanche displicente no abismo oceânico.

 

Nuvens...

...vitórias-régias celestes de sombras fartas.

 

Nuvens...

...sopro de sonhos que a brisa mata.

 

Nuvens...

...brancas, negras, douradas...

 

Dádiva alada

 

Ah! Amar,

fábula de mágica alma,

cálidos lábios e alvo abraço.

 

Ah! Amar,

dádiva alada

a bailar em vasto espaço.

 

Ah! Amar,

musical fada

que em pauta de prata me faz valsar.

 

Ah! Amar,

vendaval que a carne abrasa,

e em calma paz me faz sonhar.

Ode ao meu velho

 

Tempo, sem teu segredo

perco o que penso ter

e vejo em teu pêndulo lento

meu tormento, meu sofrer.

 

Tempo, sem teu segredo

anseio pelo que lembro

e revejo morrer, sofrendo,

aquele a quem beijei.

 

Tempo, sem teu segredo

tenho de meu o lamento.

e dos momentos de folguedo

o sentimento de quem amei.

 

Tempo, com teu segredo

sem o tropeço, o peso do medo

mantenho o anseio e o apelo

de meu relojoeiro vivendo rever.

Boca

 

Este poema fala de uma noite, de uma noite única...

 

daquela noite este poema fala.

 

 

Este poema fala de riso, de um doce riso...

 

do teu sorriso este poema fala.

 

 

Este poema fala de lábios, de carnes rubras...

 

de lábios úmidos este poema fala.

 

 

Este poema fala de toques suaves, de sabor doce...

 

de línguas que se tocam este poema fala.

 

 

Este poema fala de tua pele intocada, de mordidas...

 

de tesão este poema fala.

Inominado

 

Tarde de Outono,

morto o riso, chora o palhaço.

Cai a noite cravando na carne os olhos irados.

A cama vazia conserva nos braços um perfume:

o rubro cheiro, gemido, dos corpos suados.

 

No útero-cama se encolhe,

feto-criança sofrendo em doce ilusão:

voltar no tempo,

doces, passarinhos, uvas

um colo com aroma de bolinhos de chuva,

a dor que se foi num lamento,

um afago, uma canção.

 

Os olhos fecha,

pesados do orvalho

que a mente abrasada não ousa secar.

A alma se evola

levada nas garras

da águia dos sonhos...

...a voar.

 

Sinos repicando ao longe,

a suave ilusão é completa,

luz do sol,

noiva no altar.

Festa, vinho, corpos unidos,

sonhos, ainda, por sonhar.

 

Mas o ciúme, esse falso amigo

dá-lhe um passado,

tirando o futuro,

A amada exangue,

uma arma, um estampido.

Branca e bela numa poça de sangue,

ao som de ossos

se esfregando no escuro.

Corpo

 

Noite estranha, noite de dor,

e é tua mão que me fere,

não me tens mais amor?

 

Sou pássaro implume

e, ainda,

não posso voar.

 

Então, porque?

Porque tentar?

 

Meu débil corpo que cai,

no vazio busca abrigo.

Minha esperança se esvai,

o que fizeste comigo?

 

Sou pássaro,

ainda, criança

e não aprendi a voar.

 

Então, porque?

Porque tentar?

 

Onde está o abraço amigo?

A proteção que devias dar?

Por que estás bravo comigo?

Não me podes perdoar?

 

Sou anjo assustado

tentando,

em vão, voar.

 

Então, porque?

Porque tentar?

O Noivado

 

Desejava um jantar inesquecível, e, infelizmente, o foi.

Preparei tudo com o maior carinho e cuidado. Assistimos uma peça de teatro um pouco antes, para dar o tom romântico. Em seguida foram as flores, entregues na saída do teatro, quando e onde ela menos esperava; a florista colaborou, sensibilizada pelo meu romantismo. Depois, a reserva no melhor restaurante da cidade e em meu bolso aguardava, cintilante, o ponto alto da noite.

O ambiente sofisticado nos envolveu logo que entramos. A música suave, o frescor do ar condicionado, o leve aroma de madeira e flores e, claro, a gentileza do maitre que nos recebeu e guiou até a mesa, que já nos esperava com as velas acesas. Ela sorria enlevada. Estava linda. O brilho nos seus olhos me faziam sorrir tanto que chegava a doer.

Fizemos nossos pedidos, incluindo um vinho, caprichando na escolha pois a ocasião exigia o melhor. Veio o couvert e fomos deixados em paz, vigiados a distância por um zeloso garçom.

- Você hoje está cheio de surpresas! Belas surpresas, é verdade!

- E é só o começo - respondi.

- O que é que tem mais? - perguntou curiosa.

- Calma, que a noite ainda não acabou e nós nem começamos nosso jantar.

- A ópera foi maravilhosa, que músicas lindas, parece que ainda posso ouvir..

- ... uma discussão, escutou a discussão? interrompi.

- Que discussão? perguntou fazendo muxoxo – Eu estava falando da ópera.

- Tive a impressão de escutar algumas pessoas discutindo ao longe. Acho que foi na cozinha.

- Deixa isso para lá. Deve ter sido impressão sua. Vamos falar de nós. Você preparou tudo direitinho, hein?!

Tinha certeza de que escutara pessoas gritando umas com as outras, mas não queria estragar o clima romântico da noite. Notei que um dos garçons se aproximava do maitre às minhas costas e cochichava "Eles estão brigando!". "Outra vez? " perguntou o maitre, e, disfarçadamente, foi até um nicho na parede e subiu o volume do som ambiente.

- Estão tentando disfarçar, comentei.

- Quem está tentando disfarçar o que? respondeu zangada. Você nem prestou atenção no que eu dizia.

- Desculpe amorzinho! É que subiram o volume da música ambiente para disfarçar alguma coisa. Eu tenho certeza de que está acontecendo algo estranho.

- Claro que está! disse ela. Estamos num jantar romântico e você está mais preocupado com discussões de garçons e cozinheiros que comigo. Isso para mim é suficientemente estranho!

- Tem razão, desculpe! respondi envergonhado. O que você estava dizendo?

- Que depois de tanto tempo de namoro, é muito gratificante ver você ainda ter esse romantismo todo e preparar uma noite como esta. Isso mostra que você dá valor aos meus sentimentos. Que se preocupa em me fazer fel...

- Um grito, deram um grito? interrompi.

- Que grito? respondeu brava. Você não estava prestando atenção no que eu falava, de novo.

- Desculpe, estava sim, mas me assustei com o grito. Acho que veio da cozinha.

-Não ouvi grito nenhum. Se era para ficar falando da cozinha por que me trouxe aqui?

- Deve ter acontecido alguma coisa grave. Os seguranças correram todos para a cozinha.

- Quero ir embora! choramingou. Você estragou tudo!

-Não, não, desculpe, prometo que não vou mais prestar atenção nisso. Eu preparei tudo há tanto tempo. É para ser uma noite única. Veja os garçons estão servindo os pratos.

Ela não respondeu, enquanto o garçom nos servia. Eu ainda achava que estavam agindo de modo estranho, mas evitei comentar.

Prestei mais atenção a ela, enquanto comíamos, e aos poucos foi se acalmando. Com um rabo de olhos continuei vigiando a movimentação dos funcionários do restaurante, mas mantive-me alerta para não fazer mais comentários infelizes. Dava para perceber a troca de olhares entre o maitre e os garçons. Estavam sérios e preocupados.

Da posição em que nos encontrávamos pude ver quando entraram furtivamente dois policiais e um para-médico. Os garçons fizeram uma parede de corpos junto à porta da cozinha, mas pude ver claramente a movimentação.

Fiquei quieto. Não poderia arriscar mais nenhum comentário sem por em risco toda a noite. Preferi deixar de lado toda aquela confusão, afinal não tinha nada a ver conosco, apesar de reparar que os garçons ficavam andando por entre as mesas, lentamente, sem parar, olhando nos pratos servidos. Pareciam procurar algo.

Achei que já era hora do "gran finale", quanto antes fossemos embora, melhor, e tirei do bolso a caixinha de jóias.

- Esta é a razão de tudo o que preparei para esta noite! disse meio atrapalhado, sem conseguir lembrar o discurso que ensaiara.

- Quer se casar comigo? balbuciei entregando-lhe o presente.

Seus olhos brilharam. Ao abrir a pequena caixa lágrimas de alegria refletiram o brilho do diamante do anel.

- Oh! Bem que eu estava desconfiada de todo este romantismo! É lindo! Mas, para dar sorte, você é que tem que colocar no meu dedo!

Segurei, delicadamente, suas mãos sobre a mesa e saboreei o momento colocando o anel lentamente. Ela olhava embevecida o anel que ia adornando, aos poucos, seu lindo dedinho.

Meu olhar, fixo no êxtase em seu rosto, bebia ávido as suas reações. Por essa razão não percebi que havia algo errado.

O olhar dela, dirigido às nossas mãos sobre a mesa, foi atraído por algo na travessa com os restos de nosso jantar.

Como que em câmera lenta pude ver seu rosto mudando de alegria para horror até que retirou a mão bruscamente com um grito abafado.

Olhei para baixo e vi, enojado, um dedo indicador boiando no resto de molho e que apontado para mim parecia me acusar:

- Você conseguiu, realmente, um jantar inesquecível!

Escolhas (Republicando)

 

O radio relógio marca 03:30. Ouço a esposa ressonando ao meu lado. Que bom! Pelo menos ela está conseguindo relaxar. A inconsciência do sono me é negada. Os pensamentos fervilhando na mente não me permitem dormir. São tantos os problemas financeiros... O pior é que amanhã será mais um dia difícil. Preciso decidir o que fazer da empresa e não me sinto capaz de qualquer escolha. Todas parecem péssimas.

Levanto silenciosamente. Quem sabe um pouco de água para aplacar esse inferno. Noto que a luz da cozinha foi esquecida acesa. Ainda mais isto para aumentar a conta. O estranho é que a luz está muito azulada. Vai ver está dando curto. Estou ferrado mesmo. Empurro a porta e quase caio de costas. Tem um cara dentro da minha cozinha olhando para mim. Mas, que sensação mais esquisita. O cara sou eu mesmo. Mas diferente. Quer dizer...

-Olá! Não se assuste! Está tudo bem!

- É fácil falar! respondo. Olhando desconfiado para um outro eu que tenta me acalmar.

Que sensação maluca. Sei que aquele sujeito na minha frente sou eu mesmo, apesar de ter algumas características diferentes. Está bem elegante, nada de barriga, mas o cabelo... Nunca me imaginei usando um cabelo tão ridículo. Além de tê-lo tingido ainda está usando um litro de gel.

- Acalme-se que eu explico tudo. Sorriu meu outro eu.

-Lembra de quando queria descobrir como viajar no tempo? Que prometeu voltar para dizer a si mesmo quando conseguisse?

- Quer dizer que eu consegui? Eu sou você no futuro?

- Sim e não para as duas perguntas!

- Que raio de resposta é essa?

- Explico :Sim eu sou você, pelo menos de certa forma, mas não sou você no futuro. E não descobrimos a viagem no tempo. Isto é uma viagem entre possibilidades existenciais.

- Que? Que diabo é isso?

- Vou tentar falar em linguagem simples afinal você não é físico.

- Quase fui!

- Sim, mas decidiu não ser, e é aí que entra o que eu quero te explicar. Eu continuei na física e na tentativa de descobrir a possibilidade da viagem no tempo acabei descobrindo outra coisa.

- O que?

- Descobri que cada decisão que tomamos em nossas vidas é como se criasse uma "esquina", que dobramos ou seguimos em frente, conforme a nossa escolha. Isso gera a possibilidade de dois mundos distintos, um onde fomos em frente e outro onde escolhemos virar para uma outra direção.

- Quer dizer que quando escolhemos dividimos o nosso universo em dois? Criando duas possibilidades?

- Você entendeu rápido! Devia ter feito física! Exatamente! E a cada decisão isso se multiplica. Vivemos num universo existencial que é resultado de nossas escolhas e decisões, que faz parte de um multiverso que se estende ao infinito. Eu sou o eu que continuou na física você o eu que desistiu.

- Devo estar sonhando!

- Quer outro exemplo? Lembra que pensamos em nos tornarmos padre quando éramos adolescentes?

- Eu decidi ser? Virei padre?

- Bem, você não, um outro você, um outro nós, decidiu. Hoje é papa no universo existencial dele?

- Papa?

- É! O primeiro papa de origem americana!

- Que loucura!

- Cada decisão tomada por um de nós, cria mais um de nós.

- E qual o limite?

- Sem limites!

- Se as coisas são do modo como diz, falta me explicar por que você veio?

- Bem, você não está muito feliz com as decisões que andou tomando, certo?!

- Não, mesmo!

- Pois é! Outra coisa que descobri nas minhas pesquisas é que apesar de nos dividirmos ao infinito entre os universos existenciais ainda assim continuamos ligados uns aos outros.

- Como é? Ligados?

- Sim, e nossas decisões e estados existenciais continuam tendo influência em todos os nossos eus. Por exemplo: Já sentiu vontade de se matar alguma vez?

- Não! Credo!

- Mas a idéia já te passou pela cabeça, não?

- Bem, já algumas vezes, mas afastei como uma tremenda besteira.

- Pois é, alguns de nós, não mudaram de idéia!

- Quer dizer que...

... alguns de nós se mataram!

- Deus do céu!

- A coisa se estende ao infinito, lembre-se. Todas as possibilidades existenciais estão disponíveis, basta que decidamos.

- Mas, porque você veio? Eu não vou me matar! Estou cheio de dívidas, mas não faço isso nunca!

- Não, é provável que não. Neste universo existencial nossas opções geraram valores que diminuem as chances de cometermos tal ato.

- Então, por que?

-Como eu estava dizendo, nossos estados existenciais continuam reverberando nos demais Eus e isso cria uma certa instabilidade em todos. Além de ter descoberto a existência e funcionamento destes universos existenciais pude construir equipamentos que nos permitem fazer a viagem entre estes universos como estou fazendo agora. Enquanto estivermos dentro deste campo de não-existência tudo estará bem.

- Esta luz azulada? E se sairmos?

- Bem, você simplesmente vai voltar a sua vidinha normal. Em poucos minutos acabará esquecendo tudo o que conversamos aqui. Quanto a mim, se sair, deixando você aqui vou em poucos minutos assumir a sua existência. Vou esquecer tudo o que se passou comigo e passar a lembrar tudo o que se passou com você. Torno-me você.

- E se sairmos os dois?

- Essa seria a pior das opções. Pense bem. Você poderia, ao mesmo tempo, ter feito uma escolha e não tê-la feito? Virar à direita e ao mesmo tempo à esquerda numa encruzilhada?

- Não, claro que não, isso é uma impossibilidade lógica, isso não existe!

- Exatamente! Duas opções opostas se anulam. Deixaríamos de existir. Nossos universos existenciais se anulariam.

-Credo!

- Mas, voltando ao que eu dizia. Construí equipamentos como este meu bracelete, que permitem a criação de um campo de não-existência. É baseado numa lógica não formal. Aqui dentro é possível alem de verdadeiro e falso, um talvez...Dentro deste campo podemos coexistir como um talvez, ou com um quem sabe...

- Que coisa de doido!

- Alguns de nós ficaram mesmo!

- Você está me deixando assustado!

- Não precisa ficar. Aqui você é filosofo, não físico, mas não somos tão diferentes assim. Você é tão pirado quanto eu, quantas pessoas conhece que já te disseram isso por gostar de filosofia? Tenho certeza que empata comigo com a física.

- E verdade!

- Mas, voltamos a divagar. É difícil conversar com você, hein?

- Deve ser por causa da filosofia!

- Bem, retomando. Com essas minhas invenções foi possível criar equipamentos para explorarmos Terras alternativas onde o homem nunca se desenvolveu, isto resolveu muitos problemas energéticos e alimentares do meu universo existencial. Ganhei muito dinheiro com as patentes de minhas invenções. Sou um dos homens mais ricos de lá.

- Caramba! Isso abre muitas possibilidades!

- Realmente. E uma das que fazem maior sucesso é a troca de existências.

- Como é que é?

- Isso mesmo, troca de existências. Se um sujeito não está satisfeito com as opções que fez, pode trocar com outro que também não esteja e isso tem um reflexo positivo em todos os Eus existenciais dele. Aquela instabilidade de que eu falava diminui. Deste modo estamos tentando minimizar os problemas gerados pelas insatisfações e suicídios.

- Bela idéia! Assim ficam todos felizes e o todo fica mais feliz ainda, certo?

- Pegou a idéia!

- Tá, mas e o que eu tenho com isso?

- Ora, você não estava agora mesmo se remoendo na cama com os problemas que estão te impedindo de viver feliz? Com as decisões que terá que tomar? Então? Estava gerando o maior ruído nos equipamentos. Mais do que você só o Eu Papa, que parece estar em crise de fé, logo agora que assumiu.

- Eu não pensei que estava prejudicando a nós... quer dizer mim... sei lá , você entendeu.

- Calma, não precisa se desculpar! Eu vim para ver se você quer fazer uma troca.

- Troca? Trocar o que?

- Trocar de lugar comigo!

- Com você? Mas você é o cara que descobriu tudo isso. O cara que ficou rico com tudo. E quer trocar comigo que estou na maior pindaíba? Você é um dos meus Eus malucos?

- Não, apenas não estou satisfeito com algumas das minhas escolhas, também, e gostaria de mudá-las.

- Mas porque não escolheu outro?

- Porque as possibilidades não são muitas para a troca que almejo. Você fez algumas escolhas que eu não fiz e que gostaria de ter feito.

- Que escolhas? Não continuar com a física?

- Essa, também, mas foi só uma conseqüência. Antes você fez uma escolha mais importante.

- Qual?

- Ir ao baile!

- Que baile? Acho que viajar entre existências está te deixando maluco!

- O baile em que conheceu sua mulher!

- Ah! Esse baile. Você não foi?

- Não! E por isso não me casei. E por causa disso não parei de estudar física, pois não tinha mais nada a que me dedicar.

- Quer dizer que você ficou solteiro e sem...

- ... filhos! Isso mesmo!

- E com isso descobriu tudo o que descobriu e ficou milionário.

-Exato! Por essa razão quero tocar com você! Eu tenho o dinheiro que você deseja, já que está falido e você tem o que eu mais desejo...

- Que é?

- Uma família!

- ....

- Acho que para você fica difícil entender. Você tem uma. Você tem esposa e filha. Pode estar passando por problemas financeiros, mas não está só.

- Quer dizer que apesar de tudo o que conseguiu, preferia não ter feito aquela escolha? Preferia ter ido ao baile, namorado, casado, tido filhos, e por aí a fora? Mesmo ficando falido?

- Sem dúvida!

- Mas devem existir outros Eus por aí que também se casaram, por que não os escolhe?

- Não estão tão insatisfeitos com a vida que levam. Meus instrumentos registraram apenas quatro de nós com um alto índice de insatisfação: Eu, você, o Papa e mais um de nós que fez muitas escolhas erradas e está preso aguardando execução.

- E pelo que parece você não quer nem ser Papa nem candidato a defunto, certo?

- Certo! E além disso o Papa não se casou. Só sobra o outro para os meus objetivos.

- Legal, mas quem disse que eu quero trocar de lugar com você?

- E uma possibilidade! Se você aceitar eu lhe passo meu bracelete e saio da cozinha. Basta você apertar este botão e voltará ao meu universo existencial e em poucos minutos tudo terá acabado. Fácil!

- Entendi! Eu fico com a grana e uma vida de tranqüilidade financeira, seu cabelinho pintado e empastado de gel, e você vai para a minha cama e assume minha família e as minhas dívidas?

- Muito obrigado, mas não!

-Não?

- Não! Não quero fazer troca nenhuma!

- Mas...

- Sem mas. Tem coisas que dinheiro nenhum compra. E a sua vinda aqui é uma prova disso. Prefiro lutar com minhas dívidas a abrir mão do meu maior tesouro. Acho melhor você procurar algum outro.

- Teria que esperar um outro de nós que tenha feito a mesma opção ficar com um nível de insatisfação maior. Ou então pegar o nosso Eu criminoso. Tem certeza que não quer trocar?

- Tenho!

- Está bem! Eu posso compreender. Afinal você já havia feito a escolha antes, não é mesmo? Dificilmente mudaria. Creio que vou tentar o prisioneiro. Ele deve ter motivos fortes para desejar a troca.

- Mas e se você for condenado? Vai jogar tudo fora?

- Acho que você ainda não pegou toda a idéia. Assim que eu trocar com ele, as nossas existências serão permutadas. Para todos os efeitos eu terei vivido tudo o que ele viveu. Eu terei uma família, mesmo que seja como uma lembrança de dias melhores. Mesmo que eu esteja no corredor da morte terei toda uma existência, com a qual sempre sonhei, para me sustentar.

- Te desejo boa sorte!

- Obrigado e continue fazendo boas escolhas!

A luz azulada se foi e estou em pé e sozinho na cozinha escura.

Volto para o quarto, mas antes paro no corredor e dou uma olhada no quarto de minha filha adormecida. Uma sensação de bem estar me invade a alma.

Aconchego-me à esposa adormecida e dou-lhe um beijo.

- Que houve? Não consegue dormir? me pergunta sonolenta.

- Nada, parece que eu queria te contar alguma coisa, mas... não consigo lembrar o que é!

- É melhor você dormir, pela manhã vai ter que tomar uma decisão muito importante.

- Engraçado, não sei porque, mas acho que já tomei. Acho que já tomei!

O Camafeu (Republicando)

 

Aqueles que um dia já amaram irão compreender a obsessão que me dominou. Talvez percebam que não havia escolha, ou melhor, que a escolha já fora feita há muito tempo e não podia ser alterada.

Sempre tive fascinação por coisas antigas. Adorava músicas clássicas desde a infância e as do meu tempo não me despertavam qualquer interesse. Escolhia, em todas as oportunidades, fazer minhas refeições em locais cujas paredes fossem enfeitadas com antigas imagens da cidade, e não foram poucas as vezes em que esquecia a comida esfriando no prato, perdido em sonhos, observando enlevado a fotografia a minha frente. Sentia-me transportado àquela época remota e em meu íntimo vibrava uma saudade surda de algo que não conhecia senão por figuras amareladas pelo tempo.

Não perdia a ocasião de entrar em um antiquário e tocar, sentir cada objeto. A mente fervendo excitada, uma palpitação estranha no íntimo. Um prazer saudoso.

**********

Foi numa destas visitas que a vi pela primeira vez. Circulava por entre estantes antigas, cristaleiras repletas de bibelôs, velhas radiolas empoeiradas, um cheiro de tempo eterno no ar. Inesperadamente um aroma adocicado de canela impregnou a atmosfera daquele lugar. Senti o coração disparar, sem entender bem o porquê. O ar pareceu ficar mais espesso, os sons mais distantes, as cores mais esmaecidas. Nesse momento minha atenção concentrou-se num belo porta-retratos em prata, que parecia brilhar na penumbra do ambiente. Uma pequena jóia, um camafeu, luzia em tom azul no retrato emoldurado. E o pequeno camafeu ornava o mais belo pescoço que eu já vira. Um pescoço longo e elegante encimado pelas faces de uma deusa. Os negros cabelos, lembrando uma noite sem sonhos, caiam em cachos sobre o alvo colo. Possuía um sorriso cativante e seu olhar parecia transpassar-me como setas em brasa. Senti-me tonto. A dona da loja percebendo meu embaraço veio em meu socorro.

- O senhor está se sentindo bem? Quer se sentar um pouco?

- Não obrigado, estou bem! - balbuciei - Foi apenas uma sensação estranha de "déjà vu". Pode ter sido por causa do calor e do incenso de canela que a senhora está usando.

- Mas, eu não estou usando nenhum incenso! retrucou a velha senhora.

- E este cheiro de canela? De onde vem?.

- Que cheiro? Não senti nenhum cheiro, o senhor tem certeza de que está bem?

- Estou! disse confuso. Tem certeza que não sente esse aroma?

- Claro! Aqui só se sente o cheiro de poeira e velharia!

Saí da loja em busca de ar puro, mas parte de mim não me acompanhou.

**********

Acordei exausto e com o pensamento fixo de voltar àquela loja. O dia anterior foi terrível, pois não consegui me concentrar no trabalho. A visão daquele rosto adorável me perseguiu a cada minuto e à noite povoou meus sonhos.

Entrei como quem nada queira, disfarçando minha ansiedade. Circulei por entre os antigos objetos, até chegar defronte a moldura. E antes mesmo de olhar o retrato já senti o aroma suave de canela tomando o ambiente. O sorriso dela parecia mais brilhante do que no dia anterior. Seus olhos pareciam me dizer: que bom revê-lo. O camafeu que enfeitava seu lindo pescoço parecia brilhar com um fogo azulado na antiga foto. Era uma imagem estranha, um brilho fulgurante de cor numa foto em sépia. Sentia o coração batendo na garganta. Lembranças de um tempo desconhecido. Saudade dolorida de algo que não lembrava. Notei a vendedora que me observava e disfarcei comprando uma velha edição de "O Cruzeiro" antes de sair. Foi mais um difícil dia de trabalho. Seu sorriso me acompanhou todo o tempo. Quase fui atropelado na Paulista de tão distante e perdido em sonhos me encontrava.

**********

Tive uma semana em que minha vida parecia ter sido virada de cabeça para baixo. Todos os dias voltei à loja. Todos os dias senti o seu perfume. Todas as vezes meu olhar foi atraído pelo lindo camafeu. Não conseguia explicar porque, mas o camafeu me hipnotizava. Foram noites intermináveis, povoadas de sonhos que me agitavam e dos quais não podia me recordar ao amanhecer. Sentia-me exausto, mas uma felicidade dolorida me dominava.

**********

O Domingo, com a loja fechada, foi meu maior pesadelo. Desesperei-me. Circulei pela calçada, frente ao antiquário, por todo o dia, tentando vê-la pela vitrine, imaginando seu sorriso, sentindo na mente seu perfume. A imagem do camafeu queimava nas retinas sempre que fechava os olhos. Voltei para casa ardendo em febre. Foi uma noite infernal. Um dia sem vê-la havia destroçado minha alma. Não agüentava mais, precisava tê-la a meu lado. Tinha que comprar aquele porta retrato, custasse o que custasse. Venderia tudo o que pudesse, faria um empréstimo, mas a levaria para casa.

**********

Corri para a loja na segunda-feira, pensando em fazer qualquer coisa para comprar o tão amado objeto. Estava com o coração em brasas ao entrar na loja, uma estranha sensação me dominando. Uma angústia inexplicável. Ao chegar ao balcão foi como se o prédio desmoronasse. Ela sumira. Senti o desespero tomar conta de mim. Procurei aflito a vendedora.

- Onde ela está?

- Ela quem?

- A moça do retrato.

- Como assim? Que moça? Que retrato?

- Aquele antigo porta-retratos de prata com a foto da moça usando um camafeu no pescoço – quase gritei.

- Foi vendido – respondeu displicente.

- Como? Vendido? Mas eu ia comprá-lo.

- Se ia, por que não comprou antes? Vinha aqui todos os dias, podia tê-lo comprado.

- Quem comprou? Levou a foto junto?

- Não sei quem era. Não era um freguês regular. A esta altura já deve ter jogado a foto fora. Não tinha nenhum valor. Afinal você queira a foto ou o porta-retratos?

- A foto respondi agoniado, onde será que ela está agora? Senti as lágrimas subindo aos olhos e saí correndo daquele lugar. Agora ele me cheirava a mofo e poeira.

Pesadelo! Esta é a única definição para aquele dia. Descobri que era possível descer ao inferno por sonhar com um anjo.

**********

Devo ter andado horas pela cidade, sem me dar conta. Olhava para o chão na esperança de ver a tão amada foto jogada a um canto qualquer. Perdida. Não concebia mais viver sem aquele olhar, sem aquele sorriso. Não queria retornar para casa. Uma casa que me esperava agora tão vazia. Tinha medo do que a noite e os sonhos guardavam para mim. Mas a noite já caíra e teria que enfrentar meus medos. Peguei um ônibus e, com o rosto colado ao vidro da janela, sonhava acordado. Sentia as lágrimas correndo, mas já não me importava com os olhares furtivos dos demais passageiros. Não tinha importância. Nada mais tinha importância.

Foi então que a vi. Estava na calçada. Ali, no meio da multidão pude sentir seu olhar que me buscava. Era ela, tinha certeza. O mesmo rosto, o mesmo sorriso o lindo pescoço que me encantava. Senti falta apenas do camafeu. Dei o sinal gritando para que o motorista parasse o veículo. Desci atropelando a tudo e a todos. Resmungos e xingamentos para os quais nem liguei. Corri pela calçada tentando alcançá-la. Havia um casarão bem na esquina, um daqueles casarões antigos da Paulista, parecia iluminado e uma festa acontecia. Vi quando passou pelo portão. Corri ao seu encontro tentando alcançá-la. Agarrei-me ao portão fechado. O casarão desaparecera substituído por um moderno prédio, uma torre de vidro e concreto. Abraçado às barras do portão liberei meu choro. Um guarda perguntou se me sentia bem. Que coisa, todo mundo pensa que estou doente. Não estou com uma doença da qual queira ser curado. Ninguém parece entender que desta doença se morre, e se morre feliz.

Já passava das oito da noite. Decidi voltar de metro, mas circulei várias vezes pelas calçadas sem conseguir achar uma entrada. A imagem do casarão em festa ainda parecia me dominar. Via as árvores trocando de lugar com os prédios e voltando a desaparecer. Passado e presente se fundiam e se afastavam, deixando-me confuso. Somente depois de muito andar creio que me acalmei o suficiente para conseguir encontrar uma entrada e descer para o metro.

**********

No dia seguinte pedi uma licença no emprego. Preferia ficar longe do escritório. Não queria que me vissem naquele estado. Tinha receio de estar ficando louco. Já era difícil de entender a paixão que me dominava por um retrato antigo e agora começava a vê-la fora do retrato.

Foram dias terríveis, sentia-me um zumbi. Os sonhos não pararam. Bastava fechar os olhos e já não era mais o seu sorriso que me invadia a mente, somente a imagem do camafeu. Parecia que flutuava, brilhando como fogo na escuridão do quarto, enorme, em brasa, uma brasa azulada que me chamava.

**********

No domingo resolvi que era hora de sair da cama. Se continuasse naquele quarto iria enlouquecer. Fui dar uma volta pela Praça da República. Minha obsessão por antiguidades ainda falando forte no meu íntimo. Percorria as barracas olhando aqui mexendo ali, sem nenhum objetivo. A saudade daquele sorriso martelando meu cérebro e apertando meu coração. A imagem do camafeu flutuando à minha frente para qualquer lugar que dirigisse meu olhar.

Vi um grupo vestido à moda antiga, algum tipo de encenação. Damas com seus belos vestidos e sombrinhas coloridas, cavalheiros de fraque e cartola, crianças com calções curtos e suspensórios. Todos sorriam e passeavam ao sol. Resolvi segui-los pois essa visão me trazia uma paz que a muito não sentia. Era como se retornasse à um tempo mais feliz.

Ao me aproximar de uma antiga ponte, sobre um dos lagos da praça, senti o tão amado perfume de canela, voltei-me e debruçada sobre a amurada da ponte ela me sorria. Estava linda, vestida como as outras moças que por ela passavam, mas muito mais radiosa. Seu olhar parecia me chamar. Percebi que em seu lindo pescoço ainda faltava o camafeu do retrato. Após um tempo que não posso descrever, se uma eternidade, se um segundo, venci minha paralisia e corri ao seu encontro.

Tão estabanado fui que tropecei numa das barracas de antiquários levando tudo ao chão. Levantei-me aturdido e envergonhado, reparando que ela desaparecera. Pedi desculpas ao dono da barraca ajudando-o a recolher as peças caídas.

- Perdão, estava tão distraído vendo os atores com roupas antigas que não vi sua barraca.

- Que atores? perguntou ele me olhando esquisito.

- Aqueles que estavam junto à ponte. Apontei ao mesmo tempo em que reparava que não havia ali mais ninguém com aquela descrição, apenas pessoas comuns comprando objetos de arte.

- Devo ter me enganado, tentei me desculpar. Acho que tomei muito sol.

Enquanto ajudava o homem, pegando no chão os objetos caídos senti novamente o perfume e algo que me queimava a mão. Olhei e foi como se um choque percorresse meu corpo. Era ele, o camafeu. Ali, na minha mão. Parecia em brasa. Senti a vista turvar. Respirei fundo várias vezes. Me contive. Perguntei quanto era a peça e nem regateei o preço. Não me perguntem quanto paguei pois não me lembro. Sei, apenas, que corri dali com o mais precioso dos objetos que já tivera na vida. O camafeu que ela usara na foto. Tinha certeza de que era aquele mesmo. Não um parecido, mas o próprio.

**********

Corri sem rumo e sem perceber para onde ia, sentindo o camafeu vibrando no bolso da camisa. Parecia ter vida, palpitando junto ao meu coração. Sentia que era guiado, atraído. O camafeu me puxava e eu me deixava levar. Reparei que estava no centro histórico da cidade, entre os antigos prédios. Creio que inconscientemente atendia a um velho costume. Quando estava triste ou desanimado sempre fizera isso: andar pelas antigas ruas do centro, revendo os prédios seculares e sonhando com outros tempos. Sentido-me em contato com o passado fui aos poucos relaxando.

Atravessava a Rua Direita, verificando no relógio de bolso que já era quase meio dia, quando o aroma de canela dominou o ar. Entontecido, procurei seguir o perfume e ao virar na XV de Novembro quase trombei com ela. Senti o rosto arder. Ali, na minha frente, estava a mulher dos meus sonhos. Embaraçado, tirei o chapéu e cumprimentei-a. Devolveu-me o cativante sorriso que parecia penetrar minha alma.

- Conseguiu o camafeu? A voz suave que saia daqueles amados lábios parecia uma melodia.

Ainda zonzo e sem conseguir despregar meus olhos dos seus, enfiei minha mão no bolso da casaca e retirei o precioso objeto. Voltou-se, expondo o lindo pescoço, para que eu lhe colocasse a jóia. Seus seios subindo e descendo com a respiração e levando minha alma como jangada em mar revolto.

Ofereci-me para acompanhá-la de volta ao lar. Aceitou sorridente, abrindo a sombrinha e dando-me o braço.

- Tomaremos um bonde? perguntou.

- Não, não confio nessas máquinas modernas, retruquei.

Riu divertida e seu riso cristalino me fez feliz.

Chamei um cabriolé e rumamos para o espinhaço da Paulista.

Sentia-me em casa, finalmente.

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