Na Boca da Caverna - UOL Blog
Caçador de Sonhos

 

Hoje resolvi matar meus sonhos.

 

Comecei pelos mais antigos, aqueles já um tanto envelhecidos e cujas pernas trôpegas impediam sua fuga. Pude alcançá-los rapidamente. Foram presa fácil coitadinhos, nem mesmo ofereceram resistência e seus olhos lacrimosos mostravam resignação ao se fecharem.

 

A seguir comecei a desentocar aqueles mais covardes, os sonhos escondidos nas covas mais profundas de meu inconsciente, aqueles que jamais tiveram a coragem de se mostrar, de sequer tentar. Morreram choramingando, mas desses não tive compaixão. Não mereciam.

 

Depois veio a vez dos sonhos loucos, daqueles que sabemos que seriam ótimos, mas impossíveis de se tornarem realidade.  Também, foi fácil pegá-los pois zanzavam e dançavam por toda parte, sem noção de onde estavam e sem noção de para onde iriam. Morreram rindo, gargalhando,  sem saber, sequer, que existiam.

 

Os próximos já foram mais difíceis de pegar. Os sonhos de criança misturavam-se com os da juventude e num louco frenesi tentavam de tudo, corriam, pulavam, tinham muita energia, um vigor enorme, mas como estavam há muito guardados e esquecidos logo perderam o ímpeto e, entristecidos, se entregaram. Morreram de cansaço e desilusão pobrezinhos.

 

Logo fui no encalço de alguns dos mais complicados de se caçar: os sonhos de Natal e os sonhos de Ano Novo. Estes tem a capacidade de se disfarçarem, de mudarem suas aparências tentando nos enganar. Disfarçam-se com novos nomes, novas atitudes, mas são sempre os mesmos. São os estelionatários do mundo dos sonhos, vendendo velharias com rótulos de novidades. Tentaram me subornar, como é de seu feitio, comprar-me com presentes e promessas de mudanças, mas fui implacável.

 

Na seqüência, aproveitei para eliminar os sonhos de consumo. Estes por serem imigrantes ilegais introduzidos clandestinamente em mim, foram executados sem piedade. Nunca foram honestos comigo, não tive dó.

 

Agora os que me deram trabalho realmente foram os mais fortes e vigorosos: os sonhos de amor  e de felicidade. Como lutaram. Não se entregavam de modo algum, guerreiros mesmo. Mas utilizei contra eles todas as minhas melhores armas: o tempo, a dúvida, o ciúme, a desilusão, a falta de fé, e um a um foram caindo aos meus pés.  O que me intrigou foi o sorriso nos lábios de alguns ao morrerem. Pareciam em algum tipo de êxtase como se deles fosse a vitória. Curioso.

 

Enfim o silêncio tomou conta de mim, nada mais havia por que lutar. todos os sonhos extintos, menos um, propositadamente deixado para o final.

 

Acerco-me dele e deixo-me envolver por sua atmosfera inebriante e suave. Aos poucos, a paz toma conta de meu coração e o silêncio que se faz em minha alma lentamente  acalma e apaga todas as dores. Antes que meus olhos se cerrem, sinto seu abraço quente e terno e entrego-me ao longo e doce beijo da morte. O sonho final.

 

O Vizinho

 

- O que será que a velha anda aprontando?

Essa era a pergunta que não me saía da cabeça desde o inicio da semana, quando peguei mamãe entrando sorrateiramente na casa do novo vizinho. É claro que ela não percebeu que eu a havia visto agindo de modo tão estranho. Se não houvesse retornado à casa para pegar uns documentos esquecidos, talvez eu ainda não soubesse de nada.

Mas que raios minha mãe estaria indo fazer lá?

É bem verdade que ela está viúva há décadas, mas isso lhe daria o direito de, beirando os oitenta, arrumar um cacho? Credo! Uma senhora dessa idade deve se dar ao respeito, creio eu.

Fosse o que fosse eu iría descobrir, afinal o sujeito poderia estar abusando da inocência e da carência afetiva de minha mãe e eu não devia permitir isso. Além do mais o vizinho era bem mais novo do que ela. Claro que ele já não era um rapazinho, mas sim um cinquentão bem apessoado e com cara de galinha. E isso o tornava muito mais perigoso.

Daí que comecei a vigiar os movimentos de mamãe. Mal eu saia de casa ela fechava tudo e corria para a casa do vizinho, olhando para os lados ressabiada, como quem está escondendo alguma coisa muito grave. Eu não podia acreditar no que estava vendo.

Evidente que eu passei toda a semana seguindo seus passos, e todas as manhãs era a mesma coisa: eu saia, ela saia atrás, observando se era vista por alguém e corria para a casa do vizinho, na velocidade que suas pernas idosas permitiam. Pouca vergonha!

Finalmente resolvi tirar a história a limpo e a segui, sem que percebesse, escondendo-me no jardim e colocando-me logo abaixo de uma janela aberta por onde podia ouvir a conversa dos dois.

- Vamos começar com suavidade, sem forçar, na sua idade devemos ter muito cuidado. Dizia com voz melosa o safado. - Lembre-se do que eu ensinei, relaxe, fique calma e comece bem devagarzinho. Se ficar nervosa é pior, quando ficamos nervosos nossas mucosas secam e isso vai impedir uma boa performance além de poder causar dor.

Eu não podia acreditar no que ouvia, era um absurdo o que aquele sem-vergonha estava propondo para a minha idosa mãe.  Com certeza o sujeito era um doente, um indecente, um tarado de asilo.

Nesse instante mamãe começou a gemer de forma assustadora. Juro! Aquilo sim era um som horrível: parecia uma mistura de lamentos guturais, ataque de asma e uma gaita de foles desafinada. Evidente que minha velha estava sofrendo. E o bandido continuava incentivando:
- Isso... assim mesmo...mais rápido... agora mais devagar... assim... perfeito. Está aprendendo rápido... respire fundo... vamos... mais um pouco... a senhora leva jeito.... mas não force... acelere agora... não faça de forma automática.... procure sentir prazer nisso...

Pois bem, não deu para agüentar mais. Era muita falta de vergonha, muita indecência, e com a minha mãe...

Agarrando-me ao parapeito tomei impulso e enfiei a cara pela janela do aposento onde os dois estavam de sacanagem, pronto para dar o maior flagra.

Ocorre que mamãe estava parada ao lado de um piano e soltava arpejos roucos, observada atentamente pelo vizinho. Claro que os dois não me viram pois estavam de costas para a janela.

Assim deslizei lentamente até o chão evitando fazer barulho e sai para a rua com o coração acelerado, mas muito mais leve.

Caramba! Havia esquecido que o sonho de juventude de mamãe era estudar canto lírico.  

Debutantes

 

- Tremenda sacanagem!

Essa era a expressão mais amena que me ocorria no momento. Nunca imaginei que os  amigos iriam me aprontar uma daquelas. Que situação mais inusitada: aquele era apenas o segundo final de semana que estava ali, naquela pequena cidade mineira e já me encontrava apaixonado e encrencado.

Evidente que meus primos e amigos haviam percebido, na missa do domingo anterior, que eu fiquei encantado com a filha de um negociante da cidade, do ramo dos transportes, e como esta noite era o aniversário da menina resolveram aprontar para o meu lado.

Toda a cidade estava agitada: seria uma festa e tanto com um grande baile na casa da moça e poucos os que seriam convidados.

Tonto  e apaixonado não percebi a trama e deixei-me convencer de entrar de penetra, já que conhecíamos um dos seguranças do portão que facilitou minha passagem.

Com a roupa social alugada na alfaiataria da cidade e depois de todo um dia de expectativa e preparativos, encontrava-me no iluminado jardim tentando disfarçar o nervosismo.

O lugar estava realmente muito bonito, com todas as luzes acesas, lanternas e faixas coloridas. Aproveitando o bom tempo, haviam colocado uma pequena orquestra de cordas, em torno do chafariz, que brindava os recém chegados com algumas melodias, e o aroma das damas da noite e dos arranjos florais era inebriante.

Conforme o combinado com os amigos, dirigi-me ao salão principal onde se daria o baile, buscando um canto afastado onde não chamaria a atenção de ninguém. Aguardava.

Meu olhar percorreu todo o ambiente: tinha um pé direito altíssimo e estava ricamente adornado; os cristais dos lustres faiscavam lançando pequenas flechas de luz colorida em todas as direções; mesas muito alvas e bem arranjadas estavam dispostas em círculo delimitando a área de dança; em um dos cantos do grande salão um palco havia sido erguido e um conjunto musical já afinava os instrumentos.

E, apesar da magnificência do ambiente havia um sol que brilhava no meio do salão: ela, a mais graciosa das criaturas, vestida como uma deusa a quem eu entregaria minha alma, em sacrifício, sem pestanejar.

Caramba! Os amigos demoravam para chegar e apesar da visão adorada, sentia-me inquieto pois não conhecia ninguém e temia chamar a atenção. Já pensou se descobrem que sou um penetra? O que a doce criatura vai pensar de mim, sendo jogado para fora de sua festa?!...

Encolhi-me mais nas sombras, próximo ao palco e aguardei com o coração batendo forte. Eles me pagavam. Essa demora já estava além do normal. Deviam estar esperando lá fora o momento em que eu seria jogado pelo portão para caírem na gargalhada.

Ouvi vozes nervosas que discutiam algo às minhas costas e apurei os ouvidos. Por uma fresta na cortina vi o pai da aniversariante discutindo com o chefe da segurança. O fato é que estava possesso pois o apresentador contratado tinha dado o cano. Eu o conhecia, era um rapaz alto, loirinho, muito do entojado, que o que tinha de beleza no rosto compensava pelo vazio por trás das faces. Ocorre que as meninas da cidade caiam de amores pelo sujeito, brigavam por ele até, o que só o deixava ainda mais metido.

E pelo jeito o maroto também era mau caráter: contratado para apresentar o baile e dançar com a debutante, passou a mão na grana e caiu fora.

E agora? Era preciso alguém que, pelo menos, fizesse um discurso para a menina, apresentasse o conjunto e dançasse a valsa. E não havia ninguém. O pai não queria que qualquer um da cidade tomasse o lugar do rapaz. Como resolver o problema?

Apesar de toda a minha timidez, naquele momento, tomei coragem e sai das sombras.

De fato ofereci-me para ocupar o lugar do furão dizendo que já que era de fora da cidade e praticamente um desconhecido ali ele poderia dizer que havia me contratado exclusivamente para isso. O companheiro do velho quis saber quem eu era e quem havia me convidado, mas antes que eu pudesse dar uma desculpa qualquer o pai da garota falou para deixar isso para lá, o que queria era saber se eu entendia dessas coisas.

Pois bem, fiz a cara mais cínica que me era possível e disse que já  havia animado alguns bailes em São Paulo e que precisaria apenas de alguns minutos para me preparar e improvisar algumas palavras para dizer sobre a filha dele.

O chefe da segurança me olhava ressabiado. Quis saber quanto eu iria cobrar.

- Cobrar? respondi com ar de indignado. -Um cavalheiro não cobra para servir a uma dama.

Cá entre nós, eu tremia. Por isso fui, disfarçadamente, até a mesa de bebidas, peguei uma cuba-libre e a entornei de vez. Sem olhar para trás voltei para o palco e sentei-me esperando passar a tontura. Após longos quinze minutos as pernas bambas foram lentamente substituídas por uma coragem que antes não possuía.

Resoluto subi ao palco e proferi o discurso de minha vida. Não foi difícil elogiar a pequena. Claro que encontrava as palavras com a maior facilidade: era uma ninfa dos bosques, uma deusa de beleza e graça, o brilho diamantino que adornava o salão, possuía a leveza das fadas e a pureza cristalina das nascentes. Estava empolgado, na realidade estava apaixonado e isso facilitou muito. Não precisei inventar nada, apenas sentir e exteriorizar todo o meu sentimento.

Finalmente pedi à orquestra que tocasse a valsa e descendo tirei a minha princesa para dançar. Ela parecia tão surpresa quanto encantada com as minhas palavras e sob o olhar de todos dominamos o salão. Além de nós já não havia mais ninguém e flutuávamos embalados por Strauss.

Aquela foi a nossa noite. Não nos largamos mais, e, o que é melhor, com a total aprovação do dono da festa que nos olhava sorridente.

Ao final, quando me despedia, recebi o convite para voltar no dia seguinte quando seria servido um almoço para os mais íntimos e para a família.

Despedi-me agradecido e ao passar pelo portão reparei nos olhares murchos de meus amigos.

Tinha entrado como penetra nesta noite...

Mas voltaria como convidado logo mais...

Sonhos

 

Se o que quero....não posso...
se o que posso...não quero...

Os sonhos que tenho...
só sonho, não tenho...

Sonhos ao vento

 

Calei quando queria falar...
   e as palavras voaram ao vento...

Silenciei quando era  preciso gritar...
   e na garganta morreu um gemido...

Não disse o que dizer podia...
   e meus sonhos a te chamar ficaram...

silenciar... chorar... sonhar...

Adolescente ... outra vez!

 

Do inferno subi aos céus!...

 

Rompi nuvens, assustei os pássaros.

Cheguei ressabiado, temeroso e ...

... olhei nos olhos de Deus.

 

E se não compreendi sua vontade,

seu olhar me fez, ao menos, aceitá-la...

 

Tudo está, sempre, como ele quer...

 

E ninguém melhor que o criador de tudo

para saber o que deve ser feito...

 

Deu-me a escolha...

 

Podia ficar e me perder nas nuvens,

sentar, tocar harpa e na doce ignorância ...

 

... a eternidade passar.

 

Mas, sempre fui rebelde...

 

... e piscando com malícia ao Criador,

atirei-me de cabeça no abismo

e ao inferno retornei...

 

Pobre demônio!...

Se aqui devo ficar será nos meus termos...

Quando posso apago o fogo,

urino nos tachos, cuspo no chão...

Dou risada do tridente,

tenho orgasmos no açoite...

e trago o céu no coração.

Desespero

 

Sem que percebesse, a noite havia estendido seus negros braços pela sala e envolvido meu corpo jogado no sofá. Como que zombando de minha agonia o velho cuco cantava balançando em seu poleiro. Dez horas...

 

Abri os olhos inchados e aos poucos fui dando conta de mim e lembrando com dor: hoje faz dois meses que conheci Célia Maria...

 

Conhecer talvez não seja o termo correto, afinal nunca a vi, apenas falei e ... sonhei com ela. Mas foi o suficiente para mudar minha vida.

 

Tão logo acendi o pequeno abajur sobre a mesa o caos do apartamento tornou-se mais evidente. Antes não era assim ... Sempre fui tão organizado, metódico, tão...certinho!... Trabalhava na repartição e voltava, todos os dias, direto para casa. Não queria, não gostava de muita conversa, de companhias que pudessem causar qualquer tipo de movimento, de mudança no meu tranqüilo modo de viver: chegar em casa; fazer a janta; arrumar tudo; ver um pouco de tv; e dormir, sem sonhos, preparando-me para mais um querido, abençoado e monótono amanhecer.

 

O único dia da semana onde quebrava esta rotina era às sextas-feiras, quando trabalhava no CVV - Centro de Valorização da Vida. Claro que foi a maneira que encontrei de fazer-me útil e minimizar a sensação de vazio que às vezes insistia em me incomodar. Talvez um modo de pagar minha cota ao mundo - cota mínima, concordo -  em troca de paz e de invisibilidade.

 

Até que numa sexta-feira...

 

- CVV Boa Noite!... atendi a ligação como sempre fazia e coloquei-me a disposição de ouvir mais um sofredor. Apenas mais um dos milhares de seres humanos tocados pela infelicidade da qual me resguardava tão bem.

 

- Olá! Meu nome é Célia Maria...

 

A voz chorosa, porém macia e agradável do outro lado do telefone, por alguma razão fez com que algo dentro de mim reagisse. Ainda hoje não posso dizer o que foi que me tocou naquele momento, mas alguma coisa, insidiosamente, se instalou e começou a tomar vida.

 

De fato ouvi com muito mais atenção do que o normal as queixas, as fungadelas e os soluços da pobre moça. Digo moça, mas nunca soube a sua idade ou aparência. Para mim foi sempre uma voz. Uma doce voz!...

 

Estava desesperada, sem saber que rumo dar à vida, com medo de fazer uma besteira... Apesar de toda dor que havia em suas palavras era possível perceber um fio de esperança lutando bravamente sob um emaranhado de desilusão e fracasso.

 

Nessa noite pude auxiliá-la um pouco e fazer com que acreditasse na pequena chama que ainda lutava por iluminar sua alma. Quando desligou, senti-me realizado pela primeira vez naquele trabalho. Já havia ajudado muita gente, mas o som de sua voz dizendo “obrigada” fez com que sentisse meu coração batendo forte por muitas horas naquela noite. Ao mesmo tempo senti um vazio, uma ausência, uma falta de algo que não conhecia e que havia apenas entrevisto.

 

Seguiu-se uma estranha semana... parecia ouvir a toda hora sua voz dizendo: “obrigada”.

 

No plantão seguinte ela voltou a ligar. Apesar de seu sofrimento, senti-me alegre por ter ligado novamente. É esquisito pensar que a dor de alguém possa te deixar feliz, mas foi quase o que aconteceu. Falamos por mais de uma hora e ao desligar estava melhor e me presenteou com mais um daqueles “obrigada” que mexia com aquilo que acordava em meu íntimo.

 

Foi uma semana infernal...

 

Ah! Como o tempo não passava!... Queria tanto que a sexta-feira chegasse logo que atropelava tudo e a todos no trabalho, esquecia de fazer coisas que antes julgava importante, nem mesmo a arrumação do apartamento ficou incólume...

 

Logo cedo na sexta peguei-me colocando uma roupa mais apresentável, passando perfume, na esperança de que ligasse. Estúpido!... Por acaso queria impressioná-la por telefone?!... Quando a atendi sentia-me um garotinho que tivesse recebido o presente de natal que mais desejava. O coração pulava e como que uma corrente elétrica percorria zonas mais remotas e antes, presumivelmente, extintas. No final da conversa notei que estava bem mais calma, quando então se despediu com as doces palavras de sempre e que tanto bem me faziam.

 

A semana seguinte foi de descobertas...

 

Nunca havia percebido que ao lado de meu apartamento, e visível de minha varanda, há um parque onde crianças jogam bola, riem e brincam; que pássaros fazem seus ninhos e entoam melodias que eu nunca escutei em árvores floridas que eu jamais vi. Juro que o mundo parecia diferente, muito diferente... Até nas nuvens eu via o rosto de Célia Maria. Claro que um rosto imaginado, criado, sonhado...

 

Na sexta seguinte ela não ligou!... Havia dito, ao se despedir, na semana anterior que, graças a mim, parecia vislumbrar uma saída para seus problemas. Na hora fiquei feliz e não entendi o perigo que havia em tão doces palavras. Agora podia compreender que seu choro convulso me entristecia mas me dava prazer ao mesmo tempo. Pois, no fundo, eu estava consciente de que enquanto estivesse sofrendo ela me ligaria.

 

Ela nunca mais ligou...

 

Foram semanas de desespero...

 

Se antes caminhava suavemente para o céu, agora me afundava a passos largos no inferno. Já não conseguia mais trabalhar: irritado, negligente, precisei pedir uma licença para que não fizesse um estrago maior.

 

No CVV, acabaram por proibir minha entrada, pois tornei-me inconveniente: comecei a ir, noite após noite, tentando atender a todos os telefonemas, na esperança de voltar a ouvir a voz de meu anjo desaparecido.

 

Onde estava?...Como encontrá-la?... Se não sabia quem era ou onde morava!?... Nem mesmo seu telefone eu tinha, pois foi, sempre, ela quem ligou.

 

Somente possuía seu nome... seu amado nome... Célia Maria...

 

Tranquei-me no apartamento, hoje faz um mês...

 

Afinal não suporto a idéia de ver ou falar com mais ninguém a não ser com ela. Só, na penumbra, olho no espelho da sala e o que vejo é um espectro do que já fui um dia: magro, barbado, os olhos inchados e vermelhos, origem dos caminhos percorridos pelas lágrimas ao traçarem sulcos no meu rosto pálido e sujo.

 

Célia Maria...

 

Preciso, desesperadamente, ouvir sua voz macia agradecendo mais uma vez: “obrigada”.  

 

Por favor, Deus, sinto-me perdido, louco, a beira de fazer alguma besteira pois não vejo saída para a minha dor...

 

Olho para o telefone... Uma esperança?!... quem sabe?!...Ligo... e ouço uma voz neutra e distante:

 

- CVV Boa Noite!

O Grampo

 

Tenho certeza de que fui grampeado.

Não!... não é paranóia não!...

Toda vez que faço ou recebo uma ligação sinto que há mais alguém na linha.

Não que eu escute alguma coisa, uma respiração ofegante ou ruídos e estalidos denunciando o grampo.

Não! É uma presença.

Isso!... uma sensação de presença que não consigo explicar.

Eu sei que eles estão ali...gravando tudo e procurando alguma razão para vir atrás de mim.

Não que eu seja um sujeito metido em coisas escusas, imorais ou ilegais, mas é que parece que virou moda grampearem gente inocente. Pelo menos é o que dizem os jornais.

Se tem deputado, senador e ministro, sendo grampeados e gritando indignados por terem sua privacidade, tão imaculada, invadida por “eles” - sejam lá quem sejam esses “eles” – como devo me sentir?!... eu pobre e simples mortal?...

Apavorado, certo?!...

Fico matutando em busca de algo que possa ter feito que coloque a ABIN, a PF ou  pior: “eles” no meu encalço.

Juro que não me lembro de ter cometido nenhuma maldade, nenhum ato ilícito.

Sério, eu nunca fiquei nem com troco errado!...

Lembro, apenas, de na minha adolescência ter urinado no muro da igreja num sábado de madrugada quando ninguém estava olhando. Tinha tomado muita coca-cola - nem cerveja era, vejam só. Não dava para chegar em casa. Será que foi o padre que pediu uma investigação?... Mas já se passaram mais de 30 anos?!...

Vai saber?!...dizem que esses arapongas não descansam nunca, até te pegarem.

Devem passar de geração a geração as informações. Na época não havia a ABIN, se não me engano era o SNI agora extinto, será?...

Não eu acho que assim como o pessoal de Brasília devo estar ficando maluco. Afinal quem é que vai se arriscar a grampear os pais da pátria? Não que eles não tenham seus pecadilhos, seus segredinhos, mas não devem ter nada tão grave assim para esconder, mas...

Se é desse jeito, então o meu xixi terrorista, também, pode ser importante para os investigadores da pátria... e é melhor eu tomar cuidado...

Tenho até medo de sair de casa já imaginando ser abordado por policiais gigantescos armados e gritando:

 

Mãos na parede mijão! pensou que escapava?!...

Hotel 5 estrelas

 

Ah! Férias! Tempo para fazer tudo o que desejamos ou para não fazer absolutamente nada. Sempre gostei de viajar a lugares com história, nada desses lugares moderninhos  cheios de tecnologia. Não... Para mim o lugar tem que transpirar a passado. Sabe aqueles hotéis que ainda trazem em suas paredes o cheiro de mofo e poeira, o cheiro do tempo?!... Pois foi por essa razão que escolhi aquele hotel. Afinal foi um antigo cassino e ainda conserva um ar imponente e misterioso.

Mal entrei no quarto fui dominado pela decoração feita com materiais que não mais se vê por aí: lambris de jacarandá, paredes cobertas com papel de estampas floridas, molduras com fotos antigas em tons de sépia ou preto e branco. Logo tirei os sapatos e as meias afundando os pés naquele carpete grosso, peludo, com um toque sensual.

O certo é que a mobília era simples: uma cama, um guarda-roupas, uma mesinha redonda com duas cadeiras de palhinha, um velho ventilador de teto com pás de madeira trabalhada. História...Muita história...

Mas o que me apaixonou foi o banheiro. Acreditem, também era todo acarpetado, nada desses pisos frios e macilentos de hoje. Incrível! Isso é o que eu chamo “viver com classe”. E ali, junto à parede sob a pequena janela, estava o principal objeto daquela suíte: a banheira. Não uma banheira qualquer, mas um verdadeiro objeto histórico, toda cheia de rococós e ornamentos em suas pernas e laterais. Preciosidade esquecida por um mundo feito de duchas, chuveiros e hidromassagens. Enfim uma banheira a moda antiga só para mim.

Logo seria noite e haveria uma festa, um Luau, à beira da piscina, mas antes eu precisava experimentar aquela preciosidade. Já não me lembrava quando fora a última vez em que pudera usar uma banheira como aquela. Mais tarde desfaria as malas, o que eu precisava mesmo era de um bom e relaxante banho de imersão.

Deus do céu! que sensação boa! Aos poucos fui entrando na água quente até ficar somente com a cabeça de fora, flutuando num universo tépido onde a gravidade parecia não existir.

Nada para quebrar aquele momento mágico a não ser o som distante dos empregados do hotel em seus preparativos para o luau.

Mal comecei a cochilar e um estranho som se sobrepôs às conversações distantes. Como se pequeninas lixas roçassem umas contra as outras num suave som de raspagem entrecortado de clique-cliques. De onde viria aquele ruído bizarro?

Olhei por sobre a borda da banheira e apesar da água quente em que estava imerso, um calafrio percorreu minha espinha. Pasmem, o chão do banheiro estava coberto de baratas,  centenas, milhares... Mal dava para enxergar o carpete, e o número delas parecia aumentar a cada instante vindas só Deus sabe de onde. Já estavam por todo lado, cobrindo o chão, a cadeira com minhas roupas, tudo.

Peguei um dos chinelos, que ainda estava livre, e arremessei sobre as mais próximas. Credo! Estalaram ao serem esmagadas deixando escorrer um liquido branco e grosso. Nojento! Acho que é por isso que nunca consegui comer Dantops: casca marrom, crocante e creme branco por dentro. Blearg!

Que fazer com aqueles bichos formando uma camada tão espessa, passando umas sobres as outras pelo chão que se tornara um tapete vivo e barulhento? E o pior é que estava anoitecendo e eu não havia acendido a luz do banheiro. Jamais poderia imaginar que olharia para o interruptor ao lado da porta com tanto desejo. Juro que ele parecia acenar de um outro mundo, tão desejado e tão distante, ... inacessível.

Lentamente a escuridão foi tomando conta do banheiro e ilhado em meu esquife de água quente sentia-me temporariamente a salvo. Mas como sairia dali?

Só, no escuro, o som da minha respiração ofegante misturava-se ao raspar das carapaças e pernas nojentas que me cercavam, quebrados apenas pelas vozes que vinham pela janela do banheiro. É isso!... Os empregados do hotel em seus preparativos para o luau. Talvez se pudesse chamá-los e pedisse ajuda viessem em meu auxilio. Ergui-me na banheira tentando alcançar a pequena janela e gritar por socorro, mas naquele momento, ligaram o som e por mais que eu gritasse não me escutavam, continuando nos seus afazeres. Não sabia se xingava ou se chorava.

Tão logo deslizei e me refugiei nas águas que esfriavam, as luzes em torno da piscina foram acessas e pelo menos um pouco adentrava a janela, iluminando fracamente o ambiente do banheiro. Não tinha uma visão perfeita dos monstros, mas podia perceber a massa movediça sobre o chão.

Certo é que esfriava e sentia-me enrugando de tanto tempo dentro d’água. Então abri a torneira da água quente para elevar a temperatura do banho e a água transbordou um pouco. Nisto percebi um corre-corre sob a banheira. Olhei e na penumbra vi que as baratas se afastavam do carpete molhado onde a banheira havia transbordado.

Eureka!... Se conseguisse jogar bastante água no caminho até a porta certamente conseguiria alcançá-la e me refugiar no quarto. Logo pus em ação meu plano: mãos em concha fui atirando água por sobre a borda da banheira sempre na mesma direção, rumo à porta salvadora. Aos poucos as coisas cascudas foram abrindo espaço, fugindo dos torpedos úmidos que jogava em suas costas. Fui abrindo uma passagem liquida naquele mar de baratas. Um Moises às avessas. Quando percebi que o caminho até a liberdade estava livre preparei-me. Seria a corrida da minha vida. Avancei rapidamente enquanto os bichos ainda fugiam da água jogada e agarrei o puxador da velha porta...

Por que é que eu tinha que escolher um hotel tão antigo? A madeira envelhecida não suportou a força do meu desespero. Estarrecido olhei o puxador de bronze trabalhado em minhas mãos, livre e longe de seu lugar na porta. Estava preso...

Senti algo se esfregando em meus pés. Olhei e com a água sendo absorvida pelo carpete, assim como na Bíblia, o mar vivo voltava a se fechar em torno de mim. De Moisés liberto a Faraó em pânico. Os insetos subiam por minhas pernas nuas em busca só Deus sabe do que!?... Com um pulo olímpico estava de volta à banheira.

Se meus gritos de socorro não haviam sido escutados, meus urros de pavor finalmente o foram. Dizem que os bombeiros me encontraram mergulhado na banheira apenas com o rosto de fora e uivando como um louco. Sinceramente, não me lembro de nada. Acho que é exagero deles.

Mas daqui para a frente hotel com história e bichinhos só na Disney.

Ecos do passado

 

Ainda abalado, tomo meu café, pensativo, mal sentindo o gosto. Como um evento tão casual pode mexer tanto com a gente? Há pouco vestia-me para mais um dia de trabalho, um dia como todos os outros, emoldurado a terno e gravata. Tão comuns e iguais ficam os dias na vida da gente que se tirarmos um ou trocarmos alguns de lugar  nem iremos reparar ou sentir falta. E aprendemos a desejar e apreciar esta santa e sagrada monotonia, pois em seu lugar o que teríamos? O desconhecido. O assustador desconhecido. Algo capaz de nos tirar as coisas mais caras, ameaçar nossos valores mais íntimos, destruir nossos mais belos sonhos. Não! é melhor que tudo continue em seu doce e comum dia a dia...

Mas, aconteceu. Ao pegar velhas roupas para doar, guardadas num baú e tão antigas que delas me esquecera, do bolso de um dos casacos uma pequena esfera vermelha caiu a meus pés e rolando parou a poucos passos em atitude provocativa me encarando.

Não encontro as palavras que possam descrever o que senti. O coração parecia fraquejar em seu ritmo. Um calor há muito esquecido crescia no peito e ameaçava subir aos olhos. Faltou-me o ar.

Lentamente caminhei até o pequeno nariz de palhaço e ao tocá-lo toda uma vida desfilou diante de mim. Porque? Essa a velha pergunta que nunca obteve uma resposta. Um dia, perdido num passado de lágrimas o circo se fora deixando-me só. O sonho acabara. O futuro não mais existia. Não haveria mais espetáculos, nem músicas, nem nada...

Com o tempo busquei no circo da vida reconstruir o meu show. Trocando as roupas berrantes e o sapato sem jeito por terno e gravata; as brincadeiras e o riso por um emprego comum e insípido, por um novo mundo sem cores, mas que em seus braços me acolheu. Por décadas o desconhecido, o ladrão de sonhos ficou preso, distante, seguro. E agora, num turbilhão de lembranças e emoções ressurge, selvagem, pulando no peito enquanto olho entre lágrimas a pequena esfera de plástico vermelho em minha mão.

Ouço os som dos espetáculos que poderiam ter acontecido, mas que não aconteceram; dos risos que não foram ridos; das brincadeiras que jamais brinquei; das silenciosas gargalhadas e aplausos que fiquei sem receber. Tristes sombras de picadeiros vazios que a vida não preencheu. Fantasmas de doces lembranças que me foram roubadas antes mesmo que pudessem existir.

Olho no espelho e o que vejo é um velho palhaço vencido, esquecido de como se ri. Suspirando, ponho o nariz de volta no baú do passado, ao lado dos sonhos e dos desejos, e o fecho em silêncio. Talvez um dia realidade, sonho e alegria possam viver juntas num único coração sem doer. Talvez um dia...

O Invisivel

 

Juro! Eu o vi! Foi ontem a tarde, num momento em que, distraído, esperava o ônibus. Alguns diriam ser efeito do sol escaldante cozinhando meus miolos, mas tenho certeza de que foi real.

 

Olhava distraído o canteiro mal cuidado do jardim quando reparei que ele estava ali... sentado... parecia cochilar. Havia algo que incomodava, algo de surreal naquele homem. Creio que era um homem. Lembrava um homem. A barba grisalha cobrindo um rosto macerado, cheio de rugas, emoldurava um olhar distante, triste. Maltrapilho, recostava-se em um punhado de sacos tão rotos e sujos quanto ele.

 

As pessoas da calçada passavam e não o viam. Eu mesmo não tinha certeza se o estava vendo. Até há alguns minutos, para mim, somente haviam a praça e o ponto do ônibus. E agora lá estava ele. Surgido do nada. Algo... alguém... nada... ninguém...

 

Parecia perdido em recordações, em tempos fora do tempo, em lugares que não mais existem. Suspirou. E com seu suspiro senti que toda uma vida se dissipava levada ao vento.

 

Súbito, abre os olhos e me encara. Aquilo me incomoda e quero desviar o olhar. Mas, é tarde, estou preso, mariposa encadeada pela luz daqueles olhos, perdendo-me nas profundezas dessa mente tão distante. E tão próxima...

 

Seus olhos falam. Falam de amores perdidos, de sonhos vividos, de dores, de alegrias, de ilusões. Gritam por atenção, suplicam carinho, respeito, uma palavra, um sorriso, um simples aceno de mão.

 

Sinto doer em meu peito dores que não são minhas, sonhos desfeitos e a fé perdida. Brincadeiras de criança, um colo de mãe, aniversários, escola, família. Sombras pálidas que o tempo levou.

 

Estou perdido. Perdido num vazio infinito. Um vazio feito de vida. Vida que se fez nada. Ou quase!...Dói! A alma dói! Meus soluços me assustam e as lágrimas não aplacam a brasa daquele olhar.

 

Sou salvo pelo ônibus que chega e se interpõe quebrando o encanto que me prendia. Ainda tonto subo no veículo sem coragem de olhar para trás. Recomponho-me, disfarçando constrangido os efeitos do estranho encontro. Abro a janela, encho o peito e respiro aliviado. Aos poucos volto a ver apenas as ruas, o transito, a vida de sempre.

 

Sinto um calafrio, estremeço... mas tenho certeza de que foi real. Ou quase!?...

A Macarronada

 

Aceno da varanda para esposa e filha fazendo uma expressão resignada enquanto se afastam. Valha-me Deus, se me livrei da chata visita, sobrou o desafio de fazer o almoço!... A caminho da cozinha ligo a TV. Com o Brasil jogando hoje eu lá ia trocar o voleibol pela sogra?!...

Há tempos venho estudando os movimentos da esposa aos domingos: arruma as camas, limpa uma coisa ou outra, cuida da cadelinha... Tudo ao mesmo tempo, enquanto o almoço cozinha quase que por si só no fogão. Evidente que, também, sou capaz de surpreender minhas meninas, esperando-as com tudo arrumado e um belo prato para o almoço. Se ela consegue, e ainda cantarola, eu também posso.

Então pronto, estufo o peito decidido: faço o almoço, assisto a partida de vôlei, cuido da cadela e dou um trato na casa. Maridão perfeito e nem preciso tirar o pijama.

Antes de mais nada assisto um pouco da partida na TV. Afinal o jogo promete e eu tenho a manhã toda a minha disposição. Vai ser moleza!

....................

Benza a Deus, terminou o primeiro set e só então percebo que o tempo está voando. Melhor fazer logo o almoço, ficar livre e não correr riscos.

Observado pela cadela esparramada sobre o tapete começo pela arrumação da mesa. Por que será que as mulheres deixam sempre a mesa para o final? Acabam sempre colocando tudo na correria. Comigo não! Afinal sou mais organizado, acostumado a planejar antes de sair executando. Na realidade foi muito simples: toalha, pratos, talheres, uns enfeites e ...beleza ficou legal, vamos para a comida agora...

Bem, não vai dar para assistir o jogo, então é melhor acompanhar aumentando o som e dar apenas umas olhadas rápidas, de vez em quando.

Resolvo não complicar minha vida e fazer apenas uma macarronada: molho é fácil macarrão é só cozinhar. Pronto! Está feito o cardápio do dia!

Vamos lá! Água para ferver, um pouco de sal, um fio de óleo. Afinal eu prestei bem atenção noutro dia enquanto ela preparava o almoço. Só não me lembro se devia deixar a água ferver antes de por o macarrão?!... Tanto faz! Ponho o macarrão junto só para adiantar. É melhor prevenir e ficar com tudo já engatilhado.

Começo o molho e ... Que droga! Não encontro no livro uma receita de molho que seja simples, todas levam ingredientes que ou eu não tenho ou nem mesmo imagino onde possam estar guardados. Vai ser na base da inspiração e do olhometro!

A medida que vou picando os tomates a cadela começa a rondar os meus pés. Credo! Nunca entendi esse bicho. Devia gostar de carne e fica toda acesa com salada. Só mesmo eu para ter um cão vegetariano. Aquilo me atrapalha, ficar zanzando pela cozinha no meio das minhas pernas. Até parece que não tem comida na tigela, não posso deixar cair nada que pula em cima como uma esfomeada.

O certo é que me distraio e na hora de temperar acabo colocando mais do que devia deixando o molho salgado. Muito salgado. Bem agora ferrou, pois não tem mais tomates na geladeira. Ainda por cima estamos perdendo o jogo. E esse animal que não para de se enroscar nas minhas pernas. Vou acabar dando-lhe um chute no traseiro. Como é que minha mulher agüenta?...

Já não me sinto tão seguro de que as coisas vão sair a contento. Ponho açúcar? Não!...Puxo pela memória. E se?... É isso!...Lembrei!... Minha mãe dizia que cozinhar uma batata junto tira o sal em excesso. Santa memória!

Mas... só tem uma batata na cesta ... bom, uns dois chuchus e algumas cenouras devem servir. Afinal, legumes, tubérculos, é tudo a mesma coisa.

Caramba! Minha esperteza fez com que voltasse a ganhar confiança, pois agora posso até sofisticar o almoço. Além da macarronada posso fazer uma maionese aproveitando os legumes cozidos. Coisa de gênio!

Procuro na geladeira, no armário e ... não tem maionese, ou eu é que não acho. Êta armário entupido de trastes. Só minha mulher para encontras as coisas aqui. Bom, se não encontro e não dá tempo de ir comprar então vamos fazer em casa mesmo. A cadelinha olha para mim com ar de quem acha que não vai dar certo, o cotoco do rabo balançando de um lado para o outro a dizer não, não, não... Animal estúpido!

Pelo menos para maionese achei uma receita no livro, parece fácil e tenho tudo à mão. Continuo tropeçando na cadela, ainda vou estampar esse bicho na parede. Tá me irritando. Agora é minha cabeça que já está começando a doer. Nem sei como anda o jogo, mas não dá tempo de ir ver, estou preocupado em terminar tudo antes que elas cheguem, e os minutos voando no relógio parecem rir de mim.

Irritado, jogo os ingredientes no liquidificador e bato seguindo a receita. Arre! Parece que deu certo. Assim que pego a terrina para colocar sobre a pia piso no animal deixando cair tudo no chão. O recipiente se estilhaça sujando chão, cadela, armários, meu pijama, vejo até um respingo na porta da geladeira.

Resmungando saio da cozinha com cuidado para não pisar em nenhum caco de vidro, afinal ainda estou descalço e de pijamas. Antes de mais nada, tiro o pijama e jogo dentro da pia da cozinha. Agora vou ter que dar um jeito nele para que ninguém saiba o que aconteceu. Vou ao quarto e calço um par de tênis para não cortar os pés, mas fico de cuecas para evitar sujar outra roupa. Caceta! na cozinha o estúpido cão se banqueteia com os restos mortais de minha maionese. Bicho danado, para com isso, vai passar mal. Vai que come um pedaço de vidro, ainda vou ter despesas com veterinário. Pego o animal lambuzado, levo ao banheiro, jogo no Box, ligo o chuveiro e fecho a porta. Daqui a pouco eu volto, digo eu ao bicho. Vai se lavando que eu vou limpar a cozinha.

Falar é fácil, mas limpar é que são elas. Recolho os cacos e passo um rolo inteiro de papel toalha no chão. Ainda ficou com uma cara meio estranha, meio brilhoso, mas pelo menos não tem mais maionese visível em nenhum lugar. Agora o pijama: dou umas esfregadas com o detergente da pia, uma enxaguada e torço bem torcido. Simples, para secar ligo o forno e coloco bem dobradinho dentro de uma assadeira. Assim já fica passado e ninguém vai dizer que sofreu um acidente.

Alguns ganidos fazem que me lembre do animal no banho. Abro o Box e a encontro encolhida num canto em meio a uma nuvem de vapor escaldante. Bem feito! penso abrindo a água fria. Com o chuveirinho consigo tirar a crosta de maionese do pelo da pequena poodle. Se ela ficasse quieta e parasse de tentar me morder facilitava.

Jogo a toalha de rosto sobre ela e evitando as mordidas - bicho ingrato - seco o melhor que posso. Finalmente coloco-a dentro da pia e com o secador dou um trato no bichinho. Ficou uma graça. O cheiro ainda lembra um pouco de óleo e ovo, mas dizem que faz bem para o pelo e não há nada que um pouco de desodorante não cubra. Quando a solto corre de mim como se eu fosse um pitbull enraivecido. Ingrata!

- Que merda! Lembro do molho e corro de volta para a cozinha, desligando o fogo das panelas. Acho que passou um pouco pois o macarrão ficou um bocado mole, mas vai ter que ser assim mesmo. Ué?! Não consigo achar a maior parte dos legumes que pus no molho, parece que dissolveram, ou quase. Ainda tem uns pedacinhos boiando. Melhor bater o molho no liquidificador para misturar bem o que sobrou dos legumes, já que não vai ter mesmo maionese.

A cadela me olha de longe, ressabiada, sob a mesa. Pelo menos me deixou em paz!. Ih, gozado?!!... sinto um cheiro de coisa queimando. Meu pijama! Abro o forno, tiro a assadeira e jogo na pia apagando o fogo... Puxa, como minha cabeça lateja! Por ora, embrulho bem o que sobrou do pijama fumegante e coloco no fundo de minha pasta de documentos. Só tem um jeito, penso, amanhã no escritório jogo fora e compro outro. Abro todas as janelas para sair a fumaça e tirar o cheiro.

Já é quase meio dia, por pouco não destruo o apartamento, mato o cão e ainda não acabei o almoço. Como é que ela consegue?!... E ainda cantando?!... Deve ser bruxaria!... Aprendeu com a mãe!... Escorro a papa do macarrão e misturo com o molho numa travessa, disfarçando com uma espessa camada de queijo ralado. Até que ficou simpático!

Quando vou colocar sobre a mesa... a porta se abre e entram minhas princesas olhando espantadas para a minha figura: de cuecas e tênis parado no meio da cozinha com uma travessa fumegante nas mãos.

- Surpresa – digo, todo contente - hoje tem almoço especial.

- Mas precisa fazer quase pelado?

- É um novo estilo, filha. Dá mais liberdade aos movimentos e não deixa as roupas com cheiro.

- Você encerou a cozinha? - repara minha esposa - o chão está brilhoso e escorregando um pouco.

- É, eu quis dar um trato na casa, mas não deu tempo de fazer tudo, porque ainda dei banho na Lady.

As duas olham para o pobre animal que procura se esconder atrás delas, meio trêmula e com o pedacinho de rabo encolhido.

- O pêlo dela está esquisito, mas parece que está bem perfumada. Ou você quebrou algum vidro de perfume?

- Não é ela mesmo que está cheirosinha.

Minha esposa dá uma fungada.

- Gozado tem alguma coisa queimando? Tá um cheiro de pano queimado.

- Deve ser de lá de fora. De algum outro apartamento. As janelas estão abertas...

- Mãe a Lady tá vomitando uma coisa estranha lá na área.

Corro e fecho a porta da área - deixa ela para lá, não vamos estragar nosso apetite.

- Vamos comer que a mesa já tá posta a um tempão e deu trabalho fazer o almoço especial.

Mãos lavadas, sentados à mesa espero ansioso o veredicto, será que estão gostando da minha comida?

Mas a pergunta da esposa me convence a nunca mais tentar novas aventuras culinárias:

-Não é um pouco estranho uma sopinha de legumes para um almoço de domingo? Por que você não fez uma macarronada?!...

Cena do Cotidiano II

 

O molho de chaves tilinta em meu bolso, quando o retiro e manipulo pensativo. Como sempre, meu olhar é atraído pelo disco de couro, endurecido pelo tempo, que teimo em utilizar como chaveiro. Tornou-se um ritual. Digamos...um rito de passagem. Assim é, por existirem muitas chaves juntas: pequenas, médias, prateadas, apenas uma dourada. E é esta a que me interessa. A pequena chave sempre se destaca das outras, orgulhosa de sua função. Pode uma chave sentir-se superior? Ah!, esta parece ser capaz disso! Paro e olho para a porta. Os veios da madeira destacam-se sob a camada de cera. Mesmo envelhecida continua sendo uma bela porta, com seu tom avermelhado lembrando o mogno. Só, no corredor, seguro a maçaneta dourada e introduzindo a chave na fechadura, giro uma...duas vezes. Ouço!... O silêncio do ambiente é quebrado apenas pelos clique-cliques do mecanismo interno que movimenta o trinco. Então, liberta do batente, a porta gira deixando a débil luz do hall adentrar a sala escura.

Inundando os sentidos

 

Os raios do sol parecem alegres ao brincar de pular as ondas. A areia, ao embalo do mar, bebe o verde, torna-se cinza e doa à espuma a sua brancura. Assim que fecho os olhos o mundo azul, verde e dourado torna-se rubro. A areia tem um toque áspero e gelado em contraste com o calor do sol. Sinto nos lábios o gosto da brisa, os restos dos beijos salgados que ganhou do mar. Inspiro e sou assaltado por uma confusão de aromas: maresia, frituras, caipirinhas e cervejas, loções de bronzear. Sons se misturam numa louca babel. Perto, gritos e risos de crianças. Ao meu lado, uma dupla de velhotas, invejosamente, fala mal das moças de biquíni. Mais ao fundo, o som de um violão em sintonia com um coral de jovens vozes. Mulheres comentam o capítulo da novela da noite anterior. O vendedor de milho tenta gritar mais alto que o vendedor de picolés. Tons mais graves discutem os resultados da rodada de futebol sem concordarem. À minha direita, resmungos de velhos embalados ao som das bolas de bocha. O grito longínquo de algumas gaivotas, brigando pelos restos de algum peixe que deu à praia, luta para sobressair ao ronco surdo do tráfego na avenida distante. Concentro-me. Forço o silêncio. Sobram apenas o quebrar das ondas. O marulho suave das águas na areia. A brisa. O Mar.

Olfato

 

O aroma suave das rosas domina a sala, e, o vermelho vivo das pétalas refletindo na luxuosa baixela tinge de fogo o metal polido. Cada peça está harmoniosamente disposta. Um exército de prata e cristal aguardando ordens sobre um bordado e alvo campo de batalhas. Nesse instante os convidados adentram a sala, um a um. A medida que chegam, como num balé ensaiado, lentamente, tomam seus lugares à mesa. Depois que todos se acomodam, aproximo-me e em silêncio busco minha cadeira. Logo, a porta da cozinha se abre e a copeira adentra a silenciosa sala, trazendo nas mãos a fumegante travessa. Assim que o primeiro prato é disposto sobre a mesa, nuvens de promessas e sabores invadem o ambiente. A medida que o perfumado vapor escapa da comida sinto,  antecipadamente, o prazer que me aguarda.

[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]



Meu Perfil
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, SANTANA, Homem, de 56 a 65 anos, Portuguese, English, Livros, Livros, Livros